Possível independência de Kosovo provoca tensão na dividida Mitrovica

Félix Flores
Enviado especial a Mitrovica

Até o policial ganense da ONU que vigia a ponte de Mitrovica pergunta o que vai acontecer em Kosovo depois de 10 de dezembro, já que ele deverá estar aqui ainda, advertindo alguns sérvios e albaneses que se atrevem a passar para o outro lado da cidade dividida se se sentem bastante seguros para fazê-lo. Ninguém, nem mesmo aqueles que têm acesso a boa informação, se arrisca a afirmar se haverá uma declaração de independência, seguida de uma explosão de violência como a que ocorreu em 2004 nesta cidade junto à fronteira da Sérvia e que se estendeu por Kosovo e pela própria Belgrado.

Três sérvios tomam café, sem ter mais nada para fazer, no depauperado setor norte da cidade. Recusam-se a dar seus nomes. O mais velho quer saber: "O que a União Européia vai propor agora?" O mais jovem diz que "não há outra saída além da guerra, a diplomacia não leva a nada e sou a favor de outro 1999". O terceiro, um advogado que não pode exercer a profissão, argumenta: "Tudo isso depende dos acordos entre Rússia e EUA, que quer mais um país controlado pela Otan. Mas com essa tensão estão amedrontando as pessoas. A Sérvia não quer a guerra, nem a população de Mitrovica".

Marko Djurica/Reuters - 17.nov.2007 
Mulheres observam através da janela de campo de refugiados em Mitrovica

Ao sul, no lado albanês, notoriamente mais próspero que o sérvio ("se organizaram bem, todo mundo os ajuda"; "antes não eram bons políticos, mas veja como aprenderam", dizem no café), são muitos os que pensam que o problema de Mitrovica foi criado ou pelo menos tolerado "pelos internacionais". Um deles é o ex-primeiro-ministro e ex-prefeito interino da cidade Bajram Rexhepi, hoje candidato nas eleições municipais. "Em oito anos a missão da ONU não fez seu trabalho no norte. Antes das negociações de Viena me pediram um plano para a cidade, porque sou daqui", afirma. O plano foi evoluindo até chegar a uma proposta de "duas prefeituras, com um conselho de seis membros e um administrador internacional, pelo menos durante três anos, e um maior compromisso das tropas da KFOR pela segurança."

Alguns analistas dizem que a questão de Mitrovica deveria ser resolvida antes da definição da situação de Kosovo. No resto do território, os sérvios vivem em enclaves distantes dos albaneses, mas é nesta cidade onde todos compartilham os serviços básicos que tudo poderia recomeçar. A reintegração de propriedades ao norte e ao sul da fronteira do rio Ibar é um problema sem solução, e cerca de 2 mil albaneses continuam vivendo entre sérvios. Esse setor está sob administração direta da ONU (acrescentem-se todos os insultos possíveis por parte da Sérvia) mas existe, assim como nos enclaves do sul, uma administração sérvia paralela (acrescentem-se denúncias por parte albanesa). "Há pessoas dos dois lados dispostas a colaborar", diz Rexhepi. "Mas no lado sérvio há dirigentes que não querem, não por patriotismo, mas porque recebem de Belgrado."

"Os que colaboram estão comprados pelos albaneses", diz por sua vez um dos membros desse setor, Radoc Vulic, representante do Centro de Coordenação para Kosovo no não muito distante vale de Osojane. Para as pessoas comuns, admitem tanto Vulic como os três do café de Mitrovica, as ajudas que chegam da capital sérvia "são pouca coisa".

O plano Ahtisaari, que seria aplicado depois da independência de Kosovo, contempla uma descentralização dos enclaves sérvios, que poderiam manter vínculos com a Sérvia. De algum modo é a quadratura do círculo, e lendo a letra miúda os radicais dos dois lados vêem razões ocultas. Para Glauk Konjufca, do grupo radical albanês Vetëvendosje, "os arquitetos do plano são os governantes da Sérvia, já que o elemento principal de sua política é o território".

No entanto, de ambos os lados acredita-se que os sérvios acabarão indo embora de Kosovo se sua economia não melhorar. No animado setor albanês de Mitrovica constroem-se novos edifícios e parece que Rexhepi voltará à prefeitura. A divisão da cidade entre a Sérvia e um novo Estado kosovar é impensável, pois provocaria novas explosões. "Deveríamos ficar e lutar se for preciso", diz o advogado desempregado, "mas temo que não será assim." A cidade dividida de Mitrovica concentra as tensões diante de uma declaração de independência de Kosovo. De ambos os lados acredita-se que os sérvios acabarão indo embora se a economia não melhorar Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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