Forças Armadas do Paquistão S.A.

Jordi Joan Baños
Em Nova Déli

A mudança no comando das forças armadas do Paquistão ocorreu sem sobressaltos e sem deslealdades, como é próprio de uma instituição com um grande sentido corporativo e com muitos privilégios a proteger. "O exército é o salvador do país", repetiu mais uma vez o general Musharraf. E se é verdade que as forças armadas se transformaram em uma das poucas instituições capazes de dar consistência ao que resta do Paquistão, também é verdade que o conseguiram depois de romper a coluna do sistema político, jurídico, acadêmico ou midiático cada vez que estes se atreveram a questionar sua preeminência na vida pública. Não por acaso, ainda sem o uniforme, Musharraf jurou na última quinta-feira (29) como presidente sob uma lei marcial promulgada por ele mesmo.

No Paquistão o dogma da segurança nacional anda ao lado da religião, o que permitiu que os militares levassem a parte do leão do exíguo erário, desde a traumática independência do país. Ao amparo da ameaça, real ou imaginária, da Índia, o exército paquistanês se apropriou sistematicamente de no mínimo um terço dos orçamentos do Estado. Mesmo assim, sua intervenção na política evitou que números tão colossais fossem objeto de uma fiscalização adequada.

AFP 
Soldados do exército paquistanês descarregam armas na região do vale do Swat

Algo que os americanos já perceberam, depois de destinar US$ 11 bilhões desde o 11 de Setembro em ajuda principalmente militar, com resultados discutíveis. Esta semana, fontes do Pentágono afirmaram que a partir de agora os pagamentos serão efetuados em função do cumprimento de metas definidas, com o que se corre o risco de dar razão aos que qualificam o exército do Paquistão de força mercenária. Durante muito tempo o exército indiano -este sim, profissional e afastado da política- acusou o Paquistão de desviar fundos supostamente dirigidos a combater os talebans e a Al Qaeda para se rearmar contra a Índia, incluindo aviões de combate.

O refinado Musharraf deu ao exército paquistanês -que não ganhou guerra nenhuma- o melhor rosto possível para poder se dedicar àquilo que realmente domina: o enriquecimento à custa dos orçamentos do Estado e de redes econômicas que competem com a iniciativa privada em condições imbatíveis. Musharraf, agora como presidente civil -com amplas prerrogativas, como dissolver o Parlamento a seu bel prazer-, continuará zelando pelos interesses de seus companheiros de armas.

O Paquistão é um anão em arrecadação -1,5 milhão de contribuintes em um país de 160 milhões- embarcado em uma corrida perdida pela paridade militar com a segunda potência demográfica mundial. "Oporemos a cada espada uma espada, a cada tanque um tanque, a cada destróier um destróier", disse o ditador Zia ul Haq. Daí que a dívida pública -ou melhor, o pagamento dos juros da dívida- chegou a comer até 54% do orçamento público. Foi assim em 1999, quando Musharraf derrubou o primeiro-ministro Nawaz Sharif alegando corrupção e péssima gestão econômica. Mas neste semestre a dívida pública voltou ao nível de então, 26,35 bilhões de euros.

Um livro recente, "Military Inc.", de Ayesha Siddiqa, proibido no Paquistão, explica como os interesses privados do exército representam cerca de 14 bilhões de euros, entre propriedade imobiliária e outros bens. A autora estima que um terço da indústria pesada paquistanesa e 7% de todos os ativos do país estão em suas mãos. No Paquistão existe o costume de premiar os oficiais -aposentados ou não- com terras, o que explicaria o fato de possuírem 5 milhões de hectares, a metade a título individual.

Mas também controlam a mais vasta rede de transporte, National Logistic Cell, que com 1.700 veículos é uma das maiores da Ásia. Até a companhia aérea nacional, PIA, depende do Ministério da Defesa. E outras empresas vinculadas ao exército constroem estradas, pontes ou armazéns. Como a Frontier Works, que nasceu para traçar a autopista de Karakorum há 40 anos, mas que hoje é a principal concessionária de estradas e pedágios. Como não poderia ser de outro modo, a iniciativa privada costuma ser varrida na hora das concessões, devido à promiscuidade entre o poder político e o exército, embora este insista em que a eficácia na gestão é o segredo de seu êxito, contra a corrupção dos civis. Na realidade, as empresas ligadas ao exército recebem injeções de bilhões de euros anuais para limpar prejuízos.

A penetração militar no tecido econômico e na sociedade civil se acelerou sob Musharraf. Das centenas de negócios administrados pelas quatro maiores instituições militares, só nove divulgam suas contas. Controlam desde bancos até companhias de cimento e de aço, passando por postos de gasolina, usinas de fertilizantes e até universidades e seguradoras. Até fabricam cereais para o café da manhã. Na teoria, os lucros vão para a tropa, ou mesmo para toda a população. Na realidade, os 46 programas de moradias de uma dessas fundações têm como únicos beneficiários os oficiais, cujas mulheres passeiam por fóruns internacionais de solidariedade. Os militares enriqueceram às custas dos orçamentos públicos e controlam amplos setores da economia. A penetração da classe militar no tecido econômico e civil se acelerou sob Musharraf Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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