Rússia permanece alheia ao aquecimento global

Gonzalo Aragonés
Em Moscou

Lâmpadas de baixo consumo, separação do lixo doméstico, reciclagem, mudança climática. Todos esses termos soam a ficção científica na Rússia. A maioria dos cidadãos não tem uma idéia clara de seu significado e suas conseqüências, e as autoridades acreditam que esse é um tema para se tratar no futuro e que por enquanto não afeta a Rússia.

"Aqui o principal problema é de informação", afirma Igor Podgorny, diretor do projeto sobre eficiência energética do Greenpeace Rússia. Uma pesquisa da rede britânica BBC, realizada este ano, mostra que só em quatro países do mundo uma grande parte da população ouviu falar pouco ou nada sobre a mudança climática. São Indonésia, Quênia, Nigéria e Rússia, com 64% de seus cidadãos nessa situação.

Há um ano a prefeitura de Moscou encheu a capital de lixeiras com três recipientes, para separar plástico, papel e pilhas. Com o tempo a maioria se estragou porque ninguém recolhia o material.
A Rússia deverá aumentar o uso do carvão como fonte de energia no futuro. "O motivo é que o preço do gás natural vai superar o do carvão em dois ou três anos e muitos mudarão para o carvão para alimentar caldeiras pequenas e médias", explica Alexei Kokorin, da WWF Rússia. Segundo sua previsão, isso poderá aumentar as emissões de CO2 em 7%. Para os ecologistas seria um absurdo isso acontecer, pois a Rússia tem possibilidades de utilizar a produção de energia de forma mais eficaz, de maneira que haja gás natural tanto para consumo interno quanto para exportar à Europa e China, seus principais clientes. Os especialistas também advertem que o aquecimento global levará a Rússia a sofrer mais catástrofes naturais: além das secas haverá inundações e pragas.
USO DO CARVÃO CONTINUA


"O governo russo compreendeu que a mudança climática está efetivamente ligada ao homem e é completamente negativa para a Rússia, mas ainda não compreende que é preciso tomar medidas urgentes", explica Alexei Kokorin, diretor do programa Clima e Energia da World Wild Fund for Nature na Rússia.

A Rússia é o terceiro país do mundo em emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera. Com 1,5 bilhão de toneladas de CO2, fica atrás dos EUA (5 bilhões) e China (4,5 bilhões). Mesmo assim, as emissões da Rússia estão abaixo das emissões de 1990. E o motivo é que a indústria russa não experimentou na última década o crescimento da China e da Índia, por exemplo. De fato, calcula-se que o desenvolvimento industrial não vá superar os níveis de emissões permitidos pelo Protocolo de Kyoto em pelo menos 20 a 30 anos. No entanto, os ecologistas advertem que a explosão econômica dos últimos anos aumenta de forma preocupante a emissão de gases.

As organizações ecológicas acreditam que se não fosse esbanjador o país poderia poupar 25%. Não é estranho, por exemplo, que o cidadão russo médio passe o dia inteiro com todas as luzes da casa acesas, que não se preocupe com quanto gás gasta ou que não vigie a torneira quando realiza uma atividade tão cotidiana como escovar os dentes. À desinformação da população une-se a despreocupação das autoridades, denunciam os grupos verdes. "Graças ao aquecimento, gastaremos menos em casacos de pele e outros instrumentos para nos aquecer", disse o presidente russo, Vladimir Putin. "As autoridades acreditam que isso é coisa do futuro, que a ameaça é algo abstrato e que só afetará outros países", indica Kokorin, em Bali. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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