No coração de Bornéu: uma incursão pelo antigo território dos "caçadores de cabeças"

Rafael Ramos
Enviado especial a Kuching, Malásia

Dois televisores (um de tela plana, o último modelo), um aparelho de som, várias fotos familiares de casamento, uma imagem do Sagrado Coração, um pôster com dois gatos angorá, um congelador tamanho gigante e uma bandeira do Liverpool decoram a sala do "bobohizan" (feiticeiro) de uma comunidade de antigos caçadores de cabeças nas profundezas do Bornéu malaio.

"Há cerca de 70 anos não se corta nenhuma cabeça, e as dos turistas e colonizadores nunca correram realmente perigo", explica Kenny, o guia (metade chinês, metade aborígine) de uma expedição pelos rios que foram navegados por Somerset Maugham, Joseph Conrad e Anthony Burgess, através da selva que é o lar dos elefantes pigmeus e dos últimos 35 mil orangotangos do planeta. A paisagem não mudou em relação ao século 19: são as mesmas plantações de palmeiras e seringueiras que na época atraíram os britânicos e a Companhia do Norte de Bornéu e hoje enriquecem empresários de Kuala Lumpur.
AFP
Ara Potong é um dos 15 mil membros da tribo Penan que vive em Sarawak, Bornéu


Viajamos quase colados à província Indonésia de Kalimantan -dois terços da ilha- com freqüentes controles policiais que param os táxis ilegais (os "sapu van") do empobrecido país vizinho, carregados de trabalhadores que ganham 0,30 de euro cortando árvores, colhendo chá ou processando óleo de palma. É uma expedição do tipo colonial, com guia, intérprete, um mordomo que se encarrega de toda a logística e o motorista da camionete japonesa (os carros estrangeiros pagam 200% de imposto na Malásia, mas são mais potentes que o Proton, símbolo da industrialização do país e protegido pelo governo). Os carregadores levam mochilas com bens de primeira necessidade, como lanternas para entrar nas cavernas dos morcegos, repelentes de insetos, meias para evitar o ataque das sanguessugas e a leitura que inspirou a viagem: os contos de Somerset Maugham, "Almayer's Folly" de Conrad, a "Trilogia Malaia" de Burgess e "No Coração de Bornéu" de Redmond O'Hanlon, além de livros de botânica, zoologia e sobre as tribos pagãs da ilha.

As coisas mudaram muito desde que a administração colonial britânica dos rajás brancos obrigava os visitantes estrangeiros de Sarawak a assinar um documento declinando qualquer responsabilidade se sua cabeça fosse cortada. A estrutura dos povoados nativos, em torno de uma "longhouse" na qual vivem 30 ou 40 famílias, continua a mesma e não faltam os dois postes de madeira com as efígies esculpidas dos espíritos no alto, e uma bandeja com as oferendas do mês para merecer sua simpatia, seja arroz, os gigantes e deliciosos abacaxis de Bornéu (três vezes maiores do que os que se conseguem em Barcelona), nozes, bolas de pimenta local, frutas como o durian (proibida no transporte público, hotéis e carros de aluguel devido ao seu odor intenso) e inclusive garrafas de Guinness e Johnnie Walker, tudo isso muito mais razoável que os crânios dos guerreiros inimigos.

Os espíritos dos iban, dayak, kadasanduzun, penang, orangulu, beidayuh e demais tribos nativas de Sarawak e Sabah, as duas províncias que compõem o Bornéu malaio, aceitaram as regras da globalização. O governo de Kuala Lumpur, para tê-los recenseados e sob seu controle férreo, instalou a distâncias razoáveis clínicas e escolas e os tornou adeptos de bens de consumo universais como a televisão por satélite (cuja instalação custa 50 euros e proporciona acesso aos campeonatos espanhol e inglês).

Muitos aborígines são cristãos (anglicanos em Sarawak e católicos em Sabah), outros animistas e alguns muçulmanos, conforme quem chegou antes na corrida para convertê-los. Mas a tradição não é obstáculo para que se conservem muitas superstições, como plantar uma bananeira quando se constrói uma casa, para que os espíritos não se ofendam com a intrusão em suas terras.

Os nativos vão buscar noivas em outras longhouses, mas casar-se é um negócio muito caro que exige um dote que antigamente consistia na coleta pessoal de cabeças cortadas. Hoje varia conforme a tribo (dois búfalos ou o pagamento de uma festa de 40 dias e 40 noites entre os kadazanduzum; ou algo mais prosaico como um televisor de tela plana para os sogros entre os iban). As meninas gostam de pretendentes guerreiros ou viajados, com as pernas, os braços e o torso cheios de tatuagens que provam suas aventuras e alimentam intermináveis relatos noturnos com os copos cheios de vinho de arroz.

Os presentes são muito importantes para os aborígines de Bornéu. E é tradição que os visitantes não cheguem de mãos vazias. Em nosso caso oferecemos sacolas de pirulitos e batatas fritas, bugigangas diversas e três pacotes de cigarros -grande sucesso!-, que são objeto de uma distribuição controlada.

Esta noite tudo está em ordem na selva. Os orangotangos dormem de boca para cima nos ninhos construídos entre os ramos das árvores, os passarinhos descansam nas pontas dos galhos mais finos de mangues e casuarinas para detectar a presença de serpentes, e os elefantes pigmeus, dispersos com o odor de pneus queimados pelos habitantes da aldeia mais próxima, se dispõem a cruzar o Kinabatangan (rio dos Chineses) à luz da lua. Só falta pegar no sono com um relato de Maugham e torcer para que os caçadores de cabeças estejam satisfeitos com nossos presentes. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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