Plantações de coca na Bolívia aumentaram com Evo Morales, defende a oposição

Joaquim Ibarz
Enviado especial a Santa Cruz

A chegada de Evo Morales à presidência da Bolívia potencializou a produção de cocaína. Com a desculpa oficial de que "a folha de coca é vida, faz parte de nossa cultura", as plantações para elaborar a droga mortífera aumentaram não só nas zonas conhecidas de Yungas e Chapare, mas também em parques nacionais e reservas florestais de Santa Cruz e Beni.

Em um percurso pelo vale do rio Ichilo, fronteira com a região cocaleira de Cochabamba, pode-se comprovar a veracidade das denúncias de indígenas, ecologistas e guardas florestais: matas derrubadas são transformadas em áreas de produção de coca. As comunidades indígenas temem que o narcotráfico esteja por trás dos agricultores que ocuparam extensas áreas de reservas florestais, desmatadas sem consideração. Os nativos falam de vôos de helicópteros e pequenos aviões que eles associam às atividades de máfias colombianas.
Reuters - 5.dez.2007
Mulher recolhe folhas de coca antes de serem destruídas pelas autoridades antinarcóticos em Wallcuni, Bolívia


Segundo dirigentes da Comunidade de Povos Indígenas Mojeños (Ccipim), os colonos semeiam arroz, milho e mandioca depois de derrubar as matas para camuflar a coca que cresce em meio às plantações. Víctor Guariz, presidente da Ccipim, afirma que cocaleiros nem sequer colhem a safra de arroz, pois só lhe interessa a coca.

Embora o governo se gabe de ter reduzido as plantações, o escritório da ONU contra a Droga e o Crime (UNODC na sigla em inglês) diz o contrário. Em seu relatório de 2007 sobre a Bolívia, o UNODC indica que as plantações de coca passaram de 27,5 mil hectares em 2006 para 30,25 mil em 2007; a produção potencial de cocaína subiu de 80 para 94 toneladas.

A legislação boliviana autoriza o cultivo de 12 mil hectares para usos legais, o consumo tradicional e ritos ligados à coca. O relatório do UNODC revela um excedente de 15,5 mil hectares, especialmente na região tropical do Chapare, onde o presidente Evo Morales fez sua carreira política e sindical.

"Este governo favorece o narcotráfico. Quanto mais coca semeada, mais narcotráfico, mais poder e mais dinheiro", declara a "La Vanguardia" o deputado Ernesto Justiniano, do partido conservador Podemos. Justiniano, que foi o czar antidrogas do presidente Sánchez de Lozada, argumenta que "o governo promove um aumento das plantações de coca e a produção de cocaína. Se há mais cultivos há mais agricultores afiliados ao sindicato dos cocaleiros (de 24 mil afiliados em 2004 passaram para 45 mil), que continua sendo presidido por Evo Morales. Ao estender as plantações a Beni e Santa Cruz os indígenas andinos se transferem para as zonas controladas por autonomias hostis. É uma cunha que enfiam no território opositor".

Segundo Justiniano, no último ano a produção nacional de coca, de 48.117,20 toneladas, foi dirigida em 28% ao mercado legal e 72% à produção de cocaína.

As cifras conhecidas, algumas tiradas do Ministério da Agricultura, reafirmam que a política de Evo Morales favoreceu o aumento do narcotráfico. Em 2007 a superfície cultivada de coca é de cerca de 30 mil hectares, quase 3 mil a mais que em 2006. A erradicação de 6.300 hectares por ano é menor que o aumento das áreas acrescentadas ao cultivo: cerca de 10 mil hectares. A polícia antinarcóticos apreendeu menos de 15% do total. O confisco de folha de coca ilegal é menos de 1% da produção. A relação coca-cocaína gerou em 2007 entre US$ 365 e 826 milhões.

O senador Óscar Ortiz, do partido Podemos, denuncia a cumplicidade do governo com a proliferação do cultivo de coca. Segundo ele, o compromisso político de Evo Morales com os sindicatos cocaleiros não permite que ele combata o crescimento do narcotráfico na Bolívia. A oposição denuncia que 72% se destinam à produção de cocaína. La Paz afirma que as plantações foram reduzidas, mas a ONU declara o contrário. A cocaína gerou entre US$ 365 milhões e 816 milhões na Bolívia em 2007 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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