Superpotências do petróleo caro

Andy Robinson
Em Madri

Um espectro percorre o planeta em tempos de recursos energéticos escassos e preços do petróleo disparados. Arrepia os cabelos nas capitais tradicionais do poder e reúne líderes nada assemelhados ao consenso liberal de globalização, privatização e mercados livres, de Hugo Chávez a Evo Morales, de Vladimir Putin a Mahmud Ahmadinejad.

É o nacionalismo de recursos, o novo poder geopolítico dos produtores de petróleo e gás, que se estende do Oriente Médio à América Latina, da antiga União Soviética à África. "Trata-se de uma decisão estratégica de países com recursos energéticos para usá-los em seu próprio desenvolvimento, em vez de otimizar as receitas das empresas", disse Roger Tissot, analista do mercado de petróleo para a PFC Energy de Toronto.

Todos os dias surgem novas alianças entre os nacionalistas de recursos. Na última terça-feira em La Paz (Bolívia), a Gazprom, gigante de energia controlada pelo Estado russo, já presente na Venezuela, anunciou um investimento de 1,4 bilhão de euros no setor de gás boliviano, justamente no momento em que as multinacionais privadas, assustadas com as políticas de nacionalização do presidente Evo Morales, andam pisando em ovos. "Estamos vendo o ressurgimento de políticas de colaboração entre a Bolívia e a União Soviética dos anos 50; estão reinventando a Guerra Fria", diz Tissot.

No entanto, mais que uma nova guerra fria isso parece um conflito muito aquecido na luta global por recursos energéticos, segundo Michael Klare, autor de "Sangue e petróleo". No mês passado o preço do petróleo beirou os US$ 100 o barril, dez vezes mais que em 2000-, e os produtores energéticos adquiriram um peso geopolítico que não conheciam desde o embargo de petróleo pela Opep na década de 1970.

Ao mesmo tempo, "surge um triângulo de superpotências composto por EUA, China e Rússia", diz Klare, cujo novo livro, ainda inédito, intitula-se "Rising Powers, Shrinking Planet" [Potências emergindo, planeta encolhendo]. Eles são os principais consumidores de energia do mundo e dependentes do exterior para a maior parte de seu petróleo, com isso, empreendem uma corrida desesperada para garantir seu abastecimento energético. Isso "gera mais necessidade de proteção militar", diz Klare.

A Rússia, com 5% das reservas mundiais de cru, já sob o controle de poderosas empresas estatais, e uma indústria de armamentos em plena recuperação, "é o mais privilegiado do trio", acrescenta.

Não é por acaso que a revista "Time" acaba de indicar como "personalidade do ano" Vladimir Putin, cuja fortuna pessoal se baseia em participações em empresas de petróleo, entre as quais 4,5% da Gazprom.

Ao mesmo tempo, produtores de energia acumularam bilhões de petrodólares em poderosos veículos estatais de investimento, como a Autoridade de Investimentos de Abu Dhabi, hoje maior acionista do maior banco do mundo, o Citigroup. A Arábia Saudita, maior produtor mundial de petróleo, acaba de anunciar que criará o maior fundo de investimentos estatal do mundo e com maior participação de empresas petroleiras estatais. Desde a Gazprom até a PDVSA venezuelana ocorre uma transferência de poder do setor privado para os Estados.

"Não há segurança de investimento neste momento, e uma empresa estatal como a Gazprom ou a saudita Aramco irá onde a Exxon não se atreve a ir", disse Gal Luft, presidente do instituto neoconservador Análise de Segurança Global (AGS) em Washington.

As empresas estatais chinesas, por sua vez, assinaram acordos de fornecimento em longo prazo da África -Sudão, Chade, Argélia, Angola-, ao Oriente Médio e a América Latina, o que reforça a posição dos países petroleiros menores. O novo governo equatoriano de Rafael Correa se incorporou à Opep e rescindiu o contrato da multinacional americana Occidental.

Seguindo o exemplo do governo Chávez, Correa e Morales renegociaram contratos com multinacionais privadas, elevando as receitas do Estado, para, no caso da Venezuela, multiplicar por dez o investimento em desenvolvimento social. "Nossa indústria de petróleo tem um compromisso social e ambiental", disse a "La Vanguardia" Galo Chiriboga, ministro equatoriano das Minas e Petróleo.

Tudo isso causa irritação em Washington: "Estão privilegiando objetivos não-comerciais contra imperativos comerciais", lamenta um recente relatório do Baker Institute, do ex-secretário de Estado do presidente Bush pai. O comando sul do exército americano advertiu em junho que o nacionalismo de recursos latino-americano ameaça a segurança nacional dos EUA.

Do mesmo modo, desafiando diretamente os EUA e a Europa na área do mar Cáspio, Rússia e China assinaram acordos com países produtores como o Casaquistão, o último convertido à causa do nacionalismo de recursos, que renegociou contratos com multinacionais como Exxon-Mobil e Royal Dutch Shell para elevar as receitas estatais na exploração no mar Cáspio. Ao mesmo tempo, o governo cazaque de Nursultan Nazarbajev anunciou um acordo com Putin para construir um gasoduto do Cáspio até a Rússia, frustrando as tentativas européias de reduzir sua dependência do gás da Rússia.

Os investimentos chineses e russos em infra-estrutura petroleira e em armamentos no Irã abortaram a estratégia dos EUA e Israel de forçar uma mudança de regime no Irã, segundo Luft, ex-militar israelense do neoconservador AGS. E no Iraque também "aprendemos que, mesmo que se utilize a força para apoderar-se das segundas reservas de petróleo do mundo, não vão tirar o petróleo porque os terroristas arrebentam tudo", acrescentou. Conseqüências geopolíticas do poder energético: o nacionalismo de recursos provoca uma nova guerra fria Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos