No berço dos talebans no Paquistão

Jordi Joan Baños
Enviado especial a Peshawar, Paquistão

Nas missas de Peshawar o sangue de Cristo se transubstancia em refresco de uva enlatado. A ausência de vinho é um verdadeiro símbolo da onipresença do rigor islâmico na capital do oeste selvagem paquistanês. É o que explica o padre Joseph John, pároco da igreja de São João, construída pelos britânicos por volta de 1850.

A um passo da fronteira que divide os pashtun, Peshawar foi em sua época a meca do jihadismo internacional. Bin Laden recrutou ali, por conta da CIA, os mujahedin impacientes para expulsar os soviéticos do Afeganistão. Entretanto, nos arredores de Peshawar foram criadas as madraças, onde se doutrinou a fornada seguinte de guerrilheiros, os taleban, que conseguiram impor a chariá, a lei islâmica, a 90% do Afeganistão. Até que o 11 de Setembro provocou a intervenção americana e tiveram de bater em retirada, em muitos casos de volta ao Paquistão. Voltaram ao ataque e os que acreditavam que o Afeganistão poderia pegar uma pneumonia sem que o Paquistão se resfriasse perceberam seu erro.

Pawel Kopczynski/Reuters - 16.mar.2003 
Meninos paquistaneses vêem retrato de Bin Laden em loja de pôsteres em Peshawar

"Os de pele escura somos os verdadeiros filhos desta terra, e não os brancos (referindo-se aos fundamentalistas islâmicos que se vangloriam de ascendência persa, árabe ou turca)", protesta o padre. A igreja de São João se enche aos domingos com 500 fiéis, sobretudo na missa em urdu. Também inclui uma escola, protegida com fuzis, onde a maioria dos alunos pertence à elite muçulmana. Alunas e professoras têm os rostos e cabelos descobertos. Ao sair devem cobrir-se. Não é uma questão religiosa, mas social. Exatamente, o primeiro sinal de que se chegou ao país dos pashtun são as mulheres sem corpo e sem rosto, anuladas da cabeça aos pés pela infame burqa: azul, preta, branca ou bege.

Na saída damos com uma loja de roupas femininas, cujos manequins têm o rosto mascarado. Um pouco adiante circula uma camionete com um anúncio. Uma mão islâmica transformou em borrão os rostos das mulheres. Peshawar ao entardecer é uma cidade voltada para a rua, com uma multidão muitas vezes exclusivamente masculina. As mulheres foram varridas para o espaço doméstico.

É a parte antiga de Peshawar, cujos mercados de vendedores de berinjelas agachados parecem tirados das Mil e Uma Noites. Sob a torre Cunningham ficam as barracas de peixe e ali perto o antigo e endinheirado bairro indiano. Quase todos fugiram da Índia antes da divisão, em 1947, como os sikhs. "Restam cerca de 50 famílias hindus", nos diz Narayan, um jovem que não se atreve a confessar se torce para a Índia ou o Paquistão nas partidas de críquete. Mas, como o pastor protestante, admite que Musharraf foi bom para as minorias religiosas.

Esta semana, em um subúrbio de Peshawar, uma bomba dos taleban locais destruiu duas lojas de discos e uma barbearia e matou um vigilante. Apesar disso, os vendedores de vídeos e cassetes dizem que não têm problemas com o extremismo religioso. Mentem.

Mas são algumas comarcas tribais paquistanesas, nunca subjugadas, que põem em xeque o exército. O vale de Suat, por exemplo, onde o chamado Mulá Rádio, Fazlulah, conclama a derrubar o governo para instaurar a chariá. Mahsud, outro emir local, foi acusado por Musharraf pelo assassinato de Benazir Bhutto. O que não deixa dúvida é a presença de mais de 500 homens da Al Qaeda, que se instalaram no Waziristão e se casaram com mulheres locais depois de retirar-se do Afeganistão. Derrotar esses caudilhos, encobertos por lealdades tribais e muito armados, causaria uma grande carnificina.

O museu de Peshawar lembra aos que destruíram o Buda gigante de Bamiyan que o sorriso de Sidarta é infinito. Para que não se esqueçam das raízes do lugar, esculturas do século 3º mostram um Buda de traços helênicos. Desde a invasão de Alexandre Magno, a região foi o quebra-mar entre o mundo indiano e o europeu. A ascensão fulgurante do islã rompeu essa ponte. E os taleban continuam empenhados no mesmo trabalho de minar o resto do mundo. Sua viagem começa e termina no Alcorão. A lei islâmica impera na cidade paquistanesa de Peshawar, feudo dos islâmicos afegãos que fugiram após a intervenção dos EUA Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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