Apesar do contraste de estilos, Clinton e Obama têm poucas diferenças ideológicas

Marc Bassets
Em Nova York

Experiência e mudança, poesia e prosa, razão e sonho. Hillary Clinton e Barack Obama. As diferenças entre os favoritos nas primárias democratas para a Casa Branca são mais de estilo que de conteúdo. Há diferenças ideológicas entre Clinton e Obama? Em quê se distinguem seus programas?

À primeira vista, e com olhos europeus, Obama poderia parecer mais de esquerda. É o candidato novo, mais distante do establishment que sua adversária, primeira-dama dos EUA entre 1992 e 2000. E mobilizou jovens e universitários. Um perfil de eleitor que, ressalvadas as distâncias, coincide com o que em 2004 votou em Howard Dean, o candidato esquerdista que murchou apesar das expectativas que tinha criado.

Brian Snyder/Reuters - 5.jan.2008
Hillary Clinton e Barack Obama se encontram durante debate antes das primárias de New Hampshire
MOTIVOS DO SUCESSO DE OBAMA
SEXISMO E VOTOS PARA HILLARY
Os Clinton, Hillary e Bill, promoveram a terceira via que depois faria fortuna no Reino Unido de Tony Blair: uma social-democracia -se é que o rótulo pode ser usado nos EUA- centralista e liberal, mais dedicada a afinar o Estado do bem-estar do que a redistribuir a riqueza.

A proximidade -relativa- de Hillary Clinton com a política externa de George W. Bush também a afasta da esquerda. Em 2002 a senadora Clinton votou os poderes que autorizavam Bush a invadir o Iraque. Em setembro passado votou a favor de declarar a Guarda Revolucionária do Irã um grupo terrorista, um passo que nem sequer o governo Bush se atreveu a dar.

O próprio Barack Obama, apesar de na campanha levantar a bandeira de sua oposição à guerra do Iraque em 2002, reconheceu que na época teve a sorte de ainda não ser senador. Assim evitou encontrar-se na posição de apoiar Bush em um momento de inflamação patriótica. Em setembro passado ausentou-se do Senado na votação sobre a Guarda Revolucionária.

Apesar de que em política interna o que separa os dois candidatos são matizes -ambos poderiam ser definidos como democratas da terceira via clintoniana-, Hillary teve melhor sintonia com os sindicatos. E referências para os liberais, como o economista Paul Krugman, criticam duramente os planos de Obama de reformar a saúde.

O senador afro-americano é o primeiro a desmentir que seja um democrata tradicional. Apresenta-se como um centrista disposto a superar o confronto esquerda-direita herdado dos anos 60 e a estender a mão aos republicanos.

Não é estranho que nos últimos dias articulistas neoconservadores tenham celebrado sua ascensão, que também pode representar uma espécie de vitória póstuma contra os Clinton, objeto desde os anos 90 de um ódio visceral por setores da direita americana.

No livro "A Audácia da Esperança", Obama declara-se admirador do republicano Ronald Reagan: "Conectava com nossa necessidade de crer que não estamos sujeitos apenas a forças impessoais e cegas, mas que podemos moldar nosso destino individual e coletivo, sempre que voltarmos a descobrir as virtudes tradicionais do trabalho duro, do patriotismo, da responsabilidade individual...". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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