Rússia inaugura a nova Duma em ano de incertezas políticas

Gonzalo Aragonés
Em Moscou

As festas de Ano Novo na Rússia são sempre dias de calma na arena política. Mas em meados de janeiro começa a aumentar a tensão. A nova Duma (Parlamento), formada depois das eleições de 2 de dezembro passado, acaba de inaugurar o ano político. Além disso, em 2 de março haverá eleições presidenciais e dois meses depois Vladimir Putin deixará o poder nas mãos de seu delfim, o jurista liberal Dimitri Medvedev, que sem dúvida sairá vencedor graças ao apoio do atual presidente e dos dois partidos oficialistas, Rússia Unida e Rússia Justa.

A prioridade dos deputados será a política social e econômica. Na sexta-feira passada, discutia-se nos corredores o aumento das aposentadorias e dos salários de funcionários públicos e militares. "A campanha de Medvedev se baseia na retórica social e na implementação de iniciativas sociais. Por isso está claro que o trabalho da Duma vai se orientar em apoio à dupla Medvedev-Putin", opina o cientista político Dimitri Badovsky.

Sergei Ilnitsky/EFE - 24.dez.2007 
Deputados ficam de pé durante execução do hino russo na primeira sessão da Duma

A eleição de março preocupa mais a oposição. Além de Medvedev, há outros quatro candidatos à presidência: o líder do Partido Comunista, Gennadi Ziuganov; o líder do Partido Democrático-Liberal, o excêntrico Vladimir Jirinovsky, de retórica ultranacionalista; o ex-primeiro-ministro e hoje crítico de Putin Mikhail Kasianov, e o desconhecido Andrei Bogdanov, chefe do Partido Democrático da Rússia, última invenção do Kremlin para tirar votos da oposição, segundo especialistas.

Os três primeiros contam com o apoio de seus partidos por terem obtido representação parlamentar, mas os dois últimos precisam reunir 2 milhões de assinaturas até 16 de janeiro. Kasianov queixa-se de sofrer uma campanha suja inspirada pelo Kremlin e disse que em várias cidades nenhum tabelião quis validar as assinaturas recolhidas. Para sua porta-voz, Yelena Dikun, outro obstáculo é o desconhecimento da população. "Em muitos casos nossos ativistas tiveram de informar às pessoas que vai haver eleições."

O panorama político preparado no poder, com Medvedev como presidente e Putin como primeiro-ministro, tem o objetivo de dar uma sensação de estabilidade, sobretudo depois de alguns anos de rara bonança econômica sustentada pelos altos preços dos combustíveis. Mas essa coabitação também desperta incertezas.

"Seria melhor para todos se a promessa de Medvedev de nomear Putin primeiro-ministro simplesmente não fosse cumprida", acredita Boris Kagarlitsky, diretor do Instituto de Estudos da Globalização. O motivo é que as reformas que Medvedev poderia introduzir, especialmente no sentido de uma economia liberal, se chocariam com as idéias de um primeiro-ministro com muito poder. A atual maioria do Rússia Unida, mais de dois terços da Duma, resolveria uma hipotética crise a favor de Putin depois de um impeachment contra Medvedev.

Apesar do crescimento, não parecem boas as previsões para a economia russa no início de 2008. O novo presidente terá de enfrentar uma inflação que parecia controlada e em queda em 2006 (9%), mas que no ano passado disparou até alcançar 12%, a mais alta desde 2003. O aumento dos preços dos alimentos básicos (o óleo de girassol subiu 52,3%; o leite, 30,4% e o pão, 22,4%) parecem ser os culpados.

Especialistas críticos e especialistas a favor de Putin concordam que é difícil falar em estabilidade. Lilia Shevtsova, do Carnegie Center de Moscou, acredita que o atual sistema político, uma "imitação de democracia", pode se transformar em uma bomba. "A estabilidade conseguida através da força política criou uma situação em que nem Putin nem ninguém sabe o que vai acontecer depois de março de 2008", ela escreveu no último número de "Foreign Policy". Igor Bunin, do Centro para as Tecnologias Políticas, acredita que sob o sistema de Putin "não há instituições, nem políticas, nem legais, nem sociais capazes de assegurar a estabilidade e a prosperidade". Até mesmo um analista tão próximo do Kremlin quanto Gleb Pavlovsky, que participou da subida ao poder de Putin, lembra uma frase do dramaturgo Anton Chekov: "A espingarda está pendurada na parede". Qualquer um pode entrar no cenário político russo, pegar a arma e começar a disparar, ele escreveu no diário digital Kreml.org.

As opiniões dos especialistas são corroboradas por um recente estudo do prestigioso Centro Sociológico Levada. A maior parte dos russos, segundo a pesquisa, acredita que a Duma continuará fiel a Putin e não a Medvedev.

Obstáculos internacionais permanecem
Dimitri Medvedev herdará de Vladimir Putin não só a boa situação econômica, mas também os conflitos internacionais dos últimos anos. O primeiro se concretizará nas relações do poder russo com a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), organismo encarregado de monitorar as eleições em seus 56 países-membros. A OSCE já suspendeu sua missão de observação de longo prazo para as últimas eleições à Duma, alegando que as autoridades russas dificultaram seu trabalho ao não conceder vistos para os observadores. O governo da Rússia acusou os EUA de estar por trás da decisão.

Vários observadores consultados por "La Vanguardia" não acreditam que a situação vá melhorar com relação às eleições presidenciais de 2 de março, especialmente porque a Rússia ainda não enviou os convites necessários.

Depois desse desencontro, a Rússia ameaçou deixar de contribuir para a organização. No ano passado deu 6% de um orçamento de 168 milhões de euros. Embora seja uma contribuição pequena, uma decisão desse tipo teria um grande valor simbólico.

O escudo de defesa antimísseis, parte de cujos componentes os EUA querem instalar na Polônia e na República Checa, continuará sendo o principal obstáculo para o entendimento entre a Rússia, Washington e Bruxelas. A política no Oriente Médio, especialmente o Irã, e o futuro de Kosovo continuarão na agenda.

Ao que parece, Moscou continuará na mesma linha política. Esta semana Putin nomeou embaixador na Otan Dimitri Rogozin, um representante da linha mais dura. "Existe uma ameaça militar hipotética, porque a máquina militar da Otan se aproxima das fronteiras russas, e isso não pode nos agradar", explicou depois de sua nomeação. Rogozin é especialista em relações internacionais e dirigiu a comissão da Duma nessa matéria entre 1999 e 2003. Leal ao Kremlin, foi negociador com a UE para a região de Kaliningrado. Lidera o movimento nacionalista Rodina (Pátria). A aliança Putin-Medvedev divide os russos entre fiéis e céticos. Kasianov, ex-premiê de Putin, acusa o Kremlin de inspirar uma campanha suja contra sua candidatura Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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