O homem que pode calar Hugo Chávez

Xavier Batalla

Quando era ministro da Defesa da Venezuela, Raúl Isaías Baduel citava com deleite Noam Chomsky, dava entrevistas com cantos gregorianos ao fundo e tinha um gabinete peculiar, com figuras e imagens de santos cristãos. Agora, segundo dizem os que querem ver Hugo Chávez defenestrado, Baduel é o personagem que pode fazer calar o presidente venezuelano.

Em 2 de dezembro passado, a atenção dos venezuelanos se concentrou em dois personagens: Chávez, que resistia a admitir sua derrota no referendo organizado para se perpetuar na presidência, e Raúl Baduel, seu amigo de juventude e general aposentado, que o pressionou para que reconhecesse que tinha perdido. Baduel, 52 anos, ministro da Defesa até julho passado, saiu vencedor em duas ocasiões por motivos opostos: primeiro foi um herói para os partidários de Chávez, que não esquecem que evitou que o golpe de 2002 triunfasse; depois foi aplaudido pelos inimigos de Chávez, por se opor ao referendo que pretendia reformar a Constituição. Qual é, então, o verdadeiro Baduel: o que salvou Chávez ou o que quer tornar sua vida impossível?

Chaves e Baduel têm uma história complexa. Os dois compartilham origens rurais humildes, os dois cresceram com a mesma mania em relação às elites dirigentes e os dois se alistaram no exército com a intenção de prosperar. Em uma entrevista dada a este correspondente em agosto de 2006, Baduel explicou sua visão das elites: "Se recorrermos a estudiosos reputados como é o caso do professor Noam Chomsky, encontraremos análises nas quais se diz que muitos países se transformaram em corporações transnacionais às quais pertencem as elites governantes, dispostas a atuar em prol dos megalucros", disse em seu gabinete ministerial em Los Próceres, Caracas.

Pedro Rey/AFP - 10.jan.2007 
Chávez (esq.) e Raúl Baduel ouvem o hino nacional venezuelano durante parada militar

Em 1982, Chávez e Baduel selaram um pacto junto com outros dois companheiros de armas. Parafraseando Simón Bolívar, herói da independência sul-americana, os quatro se conjuraram para não descansar "até romper as correntes dos poderosos que nos oprimem". Esse pacto significou o início da conspiração que levou a um golpe fracassado contra o presidente Carlos Andrés Pérez em 1992. E também foi o primeiro motivo de desencontro entre Chávez e Baduel, que não participou da intentona por considerá-la mal organizada. Chávez foi para a prisão, onde permaneceu dois anos, e Baduel continuou sua carreira.

Em 1998 Chávez, livre graças a um indulto, ganhou a presidência nas urnas e Baduel, então coronel, se transformou em seu secretário pessoal, cargo do qual continuou subindo até se transformar em comandante-em-chefe da Quarta Divisão Blindada (a mais importante da Venezuela), posteriormente em comandante-geral do exército, e em 2006, ministro da Defesa. Nessa altura da história do chavismo, os outros dois conjurados em 1982 haviam tido sortes bem diferentes: um morreu nos distúrbios que sacudiram Caracas em 1989 e o outro, decepcionado, passou para a oposição.

DA UNIÃO À RUPTURA
Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, e o ex-general Raúl Baduel são dois personagens hoje antagônicos que durante anos foram aliados íntimos. Baduel fez fracassar um golpe contra Chávez em 2002. E o presidente venezuelano, que é padrinho de uma filha de Baduel, agora o acusa de ser um agente americano. Este é o trajeto desde a conjuração até a ruptura.
1982 Hugo Chávez e Raúl Baduel se conjuram com outros dois oficiais para "romper as correntes dos poderosos que nos oprimem"
1992 Chávez encabeça um golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez, que fracassa. Baduel não participa da intentona por considerá-la mal organizada
1998 Chávez ganha as eleições presidenciais
1999 Chávez assume a presidência e nomeia Baduel seu secretário pessoal
2002 Golpe de Estado contra Chávez, que fracassa graças à intervenção de Baduel
2006. Chávez nomeia Baduel ministro da Defesa
2007 Baduel abandona o cargo de ministro da Defesa em julho, qualifica de "golpe de Estado legal" o referendo proposto por Chávez para se perpetuar no poder e, na noite de 2 de dezembro, pressiona o presidente para que admita sua derrota nas urnas
Em 2006, já como ministro da Defesa, Baduel era um militar bastante particular: vegetariano, segundo disse a este correspondente, com um intrigante senso religioso. A entrevista se desenrolou em seu escritório entre figuras e imagens de santos, enquanto tocavam cantos gregorianos e queimava incenso. Em público confessou sua crença de que vive uma reencarnação, é católico e se diz adepto do taoísmo. "Sabe como me chamam?", respondeu a uma pergunta. "Me chamam de xamã, ou bruxo", disse.

Na entrevista mostrou-se comprometido com Chávez. "Temos uma democracia mais direta que muitos países desenvolvidos", afirmou. E também declarou seu respeito por Fidel Castro, mas acrescentou: "Temos o propósito de construir um processo revolucionário dentro de uma democracia; dizer que há uma tendência (na Venezuela) ao totalitarismo é um contra-senso".

Por que aquele que salvou Chávez acabou rompendo com seu aliado? Baduel respondeu ao "New York Times": "Como nossos bispos católicos deixaram bem claro, um Estado socialista é contrário às crenças de Bolívar" (1/12/2007). E Chávez? Chávez diz que "o imperialismo comprou Baduel". O presidente desconfia de um exército que, antes de ser purgado por ele, mantinha estreitas relações com Washington, que foi seu maior fornecedor de armamentos. Os oficiais americanos tiveram escritórios no Ministério da Defesa venezuelano até a vitória de Chávez. E Baduel fez cursos em Fort Benning (Geórgia). "Me chamam de xamã", declara Raúl Baduel, que já salvou Hugo Chávez de um golpe; agora, segundo a oposição, é quem pode fazê-lo calar-se Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos