"O Paquistão é mais radical que o Irã e tem a bomba atômica", diz Nobel da Paz

Isabel Ramos Rioja
Em Barcelona

Ele viveu com entusiasmo a derrubada da ditadura do xá e apoiou a chegada do imã Khomeini, que não demorou para afastá-la da magistratura. Anos depois, Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz 2003, retomou o direito da única posição possível para uma mulher: a advocacia. Na Casa Ásia, com a colaboração da Fundação Cidob, ela falou sobre "Islã, direitos humanos e participação política da mulher".

La Vanguardia - Há uma saída digna do atoleiro nuclear para o Irã?
Shirin Ebadi -
O Conselho de Segurança da ONU sancionou o Irã em duas ocasiões e pediu que interrompa o enriquecimento de urânio. O mundo tem medo de que o Irã possua a bomba atômica, embora sempre tenha manifestado que não pretende usar a energia nuclear com fins armamentistas. A Organização Internacional de Energia Atômica disse que até esta data está tudo em ordem. Creio que o Irã deve parar o processo de enriquecimento de urânio para ganhar a confiança internacional de que tem intenções pacíficas. Depois poderá continuar o processo. Foi o que aconteceu na época de Khatami. Por isso a relação do Irã com outros países melhorou muito. Também é importante se perguntar: por que o mundo não confia no Irã quando diz que não tem más intenções? A razão é muito simples. As decisões são tomadas a portas fechadas e longe da vista do povo. As pessoas não podem votar em quem querem, só nas pessoas aceitas pelo Conselho dos Guardiães da Revolução. E se alguém fizer a menor crítica ao governo seu pedido para participar das eleições será vetado pelo conselho. Quando um país não tem eleições livres ninguém confia nele em escala internacional.

Fernando Alvarado/EFE
Shirin Ebadi diz que a censura no Irã é cada vez mais dura
LV - Quando a senhora diz que não sabe por que não acreditam no Irã se refere ao duplo critério aplicado pelos EUA?
Ebadi -
Não sou a favor da política de duplo critério dos EUA, que afirma que se o Irã conseguir a bomba atômica vai ameaçar a segurança internacional. Os EUA pensam assim porque o Irã não é um país democrático e porque tem um islamismo radical. Também dizem que o Irã ajuda grupos terroristas. Mas quero levá-lo a leste do Irã, ao Paquistão. Pervez Musharraf chegou ao poder com um golpe de Estado. O Paquistão foi o país onde se conceberam os talebans. Quando estes chegaram a Cabul, o Paquistão logo reconheceu seu governo. O islamismo que há no Paquistão é muito mais radical que o do Irã, e tem a bomba atômica. Os EUA nunca se sentiram ameaçados pelo Paquistão. E a pergunta da população iraniana é: que diferença há entre o Irã e o Paquistão? Não será o petróleo que o Irã tem?

LV - Em seu complexo sistema político, votar não serve para muita coisa.
Ebadi -
Sim, é verdade. Mas para construir um edifício de 20 andares é preciso começar pela base, que na democracia é a liberdade de expressão. No Irã a censura é cada vez mais dura.

LV - Mais que nos primeiros momentos da revolução?
Ebadi -
Estamos pior do que com Khatami e melhor que há 27 anos.

LV - Melhorou a situação das mulheres e dos presos políticos devido à sua ação como advogada?
Ebadi -
O Prêmio Nobel me ajudou muito, porque me proporcionou mais alto-falantes para fazer ouvir melhor minha voz. E dizer ao mundo que ainda temos a lei da lapidação. E que no mês passado condenaram cinco políticos a ter a mão direita e o pé esquerdo cortados (a pena por roubo). E dizer que no Irã são executados menores de 18 anos. Mas na escala interna o governo está muito mais contra mim. É óbvio que não agrado a eles. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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