Grã-Bretanha passa de doente a tigre da Europa

Rafael Ramos
Em Londres

Não passaram sequer 40 anos desde que o Reino Unido ainda convalescia no hospital da política e da economia internacionais como o enfermo da Europa, quando o país se recuperou com a força de um touro, aproveitando as oportunidades da globalização, a energia dos imigrantes, o papel da City como capital mundial das finanças e sua "terceira via" entre o liberalismo americano e a social-democracia do continente.

Um estudo da consultoria Oxford Economics que situa a renda per capita britânica acima da dos EUA (e também da França e da Alemanha) é somente a confirmação oficial de uma realidade há tempo palpável no local: Londres é a capital do mundo no início do século 21, como foram Nova York no 20 e Paris no 19, com um cosmopolitismo que torna pequenas suas rivais e a transforma na autêntica terra das oportunidades. Em seus bairros falam-se 300 idiomas diferentes, um em cada três londrinos nasceu em outro país e todos os anos chegam 150 mil novos trabalhadores estrangeiros.

Oligarcas russos, xeques árabes, petroleiros texanos e condes italianos controlam seus investimentos em fundos hedge e mercados emergentes de fabulosos apartamentos; as marinas do Tâmisa são a garagem dos iates mais excessivos do mundo; milionários americanos e ditadores tailandeses são donos de times de futebol da liga principal; os restaurantes de Londres -segundo muitos especialistas- deixaram para trás os de Paris; novos arranha-céus de Norman Foster e Renzo Piano mudam o skyline da City; a arte contemporânea fervilha com as caveiras de diamantes de Damien Hirst e as excentricidades de George e Gilbert, enquanto o clássico deslumbra com os tesouros de Tutancâmon e a exposição na Royal Academy de obras dos grandes museus russos; três orquestras de música clássica, duas óperas e os teatros do West End apresentam uma oferta cultural inigualável; o Eurostar leva até Paris em duas horas e, como se fosse pouco, a cidade prepara um investimento maciço para os Jogos Olímpicos de 2012.

De tradição mercantil, o Reino Unido foi a primeira potência a se industrializar e aproveitou as mudanças econômicas revolucionárias do final do século 19 para controlar mais da metade do comércio mundial de carvão, ferro, algodão e têxtil, construir a maior frota comercial do planeta e desenvolver um império que se estendeu pela África e a Ásia. A Segunda Guerra Mundial, a socialização dos anos 60 e 70, as convulsões inflacionárias, sindicatos combativos e a entrada tardia na Comunidade Econômica Européia propiciaram um declínio que deixou o país para trás da França, Alemanha e EUA e reduziu sua influência internacional. Mas a globalização e as reformas promovidas por Thatcher e aprofundadas por Blair fizeram o tigre britânico rugir novamente. Mas também criaram uma sociedade mais desigual, com centros urbanos deprimidos e diferenças abissais entre pobres e ricos, jovens e idosos, trabalhadores qualificados ou não, o sul próspero e o norte pós-industrial e proletário.

O crescimento econômico sustentado dos últimos 14 anos, uma libra forte, inflação modesta e o segundo menor desemprego da UE formam a receita mágica que tirou o doente inglês da cama em que se encontrava prostrado. Os governos conservadores de Thatcher e Major domaram os sindicatos, nacionalizaram indústrias, liberalizaram os mercados financeiros e fecharam as minas, assentando as bases de uma sociedade mais atraente para os investimentos e onde se pode ganhar mais dinheiro, mas menos coesa e com terríveis focos de miséria. O novo trabalhismo concluiu a tarefa com sua combinação de livre mercado e pílulas de justiça social.

"Enquanto os EUA se debatem nos estertores da era Bush e Sarkozy busca a maneira de tirar a França das garras da burocracia, direitos adquiridos e excessos regulatórios, o Reino Unido, com sua mentalidade mercantil e o fato de o inglês ser o primeiro idioma mundial, se beneficiou mais que ninguém do livre fluxo de bens, capitais e serviços que acompanha a globalização", diz o professor Thomas Crabbe, da East London University. A flexibilidade de seu mercado de trabalho atraiu milhões de poloneses, espanhóis, italianos e alemães que vêem Londres como o novo Eldorado, um paraíso cosmopolita onde não importa de onde se vem nem o que se fez antes, a oferta de emprego é inesgotável e quem trabalha duro prospera.

Mas apesar de o Reino Unido ter passado de o doente da Europa a um modelo a imitar, nem tudo o que reluz é ouro e o panorama é ameaçado pelo duplo perigo da recessão econômica e do terrorismo. "A virtual quebra do banco Northern Rock expõe em toda a sua crueza os riscos de uma economia baseada na dívida tanto pública quanto privada [160% da renda disponível] e o crédito fácil", diz o economista Frederick Gibbs.

E por cima de tudo, desde que jovens britânicos de origem islâmica cometeram os atentados de 7 de julho de 2005, o fantasma do terrorismo paira sobre um país com 1,6 milhão de muçulmanos. O uso político do medo pelos governos Blair e Brown desembocou em medidas de segurança e reduções das liberdades civis que constituem a principal ameaça a um modelo de sociedade cujo êxito se baseia na liberdade, diversidade e multiculturalismo. O impulso econômico do país transforma Londres na nova capital do mundo. A receita mágica: libra forte, inflação discreta, crescimento sustentado e baixo desemprego curaram o doente. Mas os fantasmas da recessão econômica e do terrorismo são a grande ameaça Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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