Ditadura de Mugabe conduz o Zimbábue ao caos

Rafael Ramos
Enviado especial a Victoria Falls

São 9 da manhã e as dezenas de pessoas que lotam a plataforma número 1 da minúscula estação de Victoria Falls olham para o relógio desesperadas. Há duas horas deveria ter chegado o trem de Bulawayo trazendo pão, gasolina e alguns sacos de alimentos para fazer um pouco de volume nas desoladas prateleiras do armazém da cidade. Depois de um momento, começa a correr o rumor de que o trem descarrilou, e as pessoas já prevêem passar mais alguns dias sem farinha, café ou açúcar.

"Tudo deixou de funcionar neste maldito país", exclama Julius, um guia turístico que costumava ganhar a vida levando americanos ricos para caçar. "É o colapso absoluto do Estado e de todas as suas instituições. Não há moeda, não há alimentos, não há gasolina, não há eletricidade, não há peças de reposição... Mugabe? Até um macaco faria melhor que Mugabe. O mínimo que se pode pedir a um ditador é que saiba administrar a economia."

Philimon Bulawayo/Reuters - 12.dez.2007 
O presidente Robert Mugabe gesticula para seus militantes em Harare, Zimbábue

Para um país que prende e tortura rotineiramente os membros da oposição, e no qual é contemplada com a prisão a entrada e o trabalho sem permissão (que nunca é concedida) de jornalistas estrangeiros, surpreende o entusiasmo unânime com que todo mundo -atendentes de comércio, motoristas, porteiros de hotel, vendedores ambulantes, homens de negócios- critica e insulta Mugabe. Inclusive os soldados. "É que eles também têm de comer", explica Julius.

"A arma mais importante do presidente é a ignorância", comenta Taka, integrante da etnia ndebele que emigrou de Harare há alguns meses para tentar ganhar a vida em Victoria Falls, onde os turistas sul-africanos deixam gorjetas em rands, que, transformados em dólares do Zimbábue, valem uma fortuna. "As autoridades municipais são ex-soldados que lavaram o cérebro da população, convencida de que se não apoiarem o regime os britânicos tomarão outra vez o país, como se isso fosse possível. A única solução é se fazer passar por um deles, prometer o voto e, nas urnas, dá-lo à oposição."

Os números falam por si: a expectativa de vida não chega aos 40 anos, a inflação oficial é de 8.000% (a real é estimada em 150.000%, a maior da história em qualquer lugar do mundo), e nem mesmo essa cifra significa nada diante da falta de dinheiro em circulação. A Reserva Federal de Zimbábue acaba de emitir novas cédulas de 1, 5 e 10 milhões de dólares locais. Os preços mudam a cada hora. Para comprar qualquer coisa -no caso improvável de que esteja à venda- é preciso levar uma sacola cheia de notas.

Os hospitais exigem dinheiro antecipado -através de transferências que demoram até três ou quatro dias- para realizar uma operação. Os cortes de luz interrompem as cirurgias. Há três anos não há gasolina no posto de serviço de Victoria Falls. A livraria está fechada. As filas para subir no ônibus são tão grandes que os motoristas multiplicam as tarifas por cinco, só admitem os que pagam e embolsam a diferença. Com o orçamento de sete anos atrás para as obras inacabadas do aeroporto hoje só é possível comprar 16 pães de forma.

Em Zimbábue todo mundo é milionário. Um jornal custa 2 milhões de dólares, um pedaço de carne 100 milhões. Considera-se normal que um turista deixe uma gorjeta de 10 milhões (que não chega a 4 euros e mal dá para comprar uma penca de bananas).

"O problema é que um salário médio não passa de 20 milhões", conta Dakarai na porta de sua modesta casa de azulejos em uma periferia de Victoria Falls distante dos turistas, entre o latido de cães famintos e os esqueletos de carros depenados, mas cheia de antenas parabólicas que custam US$ 100 em Gabarone, e a assinatura mensal tanto quanto o aluguel de uma casa.

Dakarai é um milionário de Mugabe que pode ganhar a vida em moeda estrangeira (o sonho de qualquer pessoa) porque fala inglês perfeitamente e tem um carro próprio. Mesmo assim sua renda só basta para alugar um quarto para ele, sua mulher e seus dois filhos e dividir a cota da parabólica, que permite ver os jogos dos campeonatos inglês, italiano e espanhol.

"O Barça está zero a zero com o Mallorca aos 20 minutos do primeiro tempo, não está jogando muito bem", ele explica depois de entrar um pouco em casa para deixar uma garrafa de Coca-Cola, batatas fritas e alguns pães que comprou em Botsuana (vai congelar a maior parte), aproveitando que levou um grupo de turistas ao parque nacional de Chobe.

"Shhh", diz Dephne, corretora da Bolsa de Harare, quando avista o posto de fronteira que separa Victoria Falls de Zâmbia. "Este é o único lugar onde não se pode falar, todos os guardas são do serviço de inteligência."

Uma vez no país vizinho, deixando para trás uma fila de caminhões que espera quatro dias para passar pelos trâmites, a especuladora financeira resume seu brutal relato, e isso que pertence à classe média acomodada, cada vez mais escassa: "O Estado é o principal cliente do mercado negro, porque não existe outra economia. Não há dinheiro porque os preços sobem mais depressa do que a Reserva Federal consegue imprimir notas. A única maneira de sobreviver como empresário é ter uma contabilidade fictícia para que nunca haja efetivo, porque se evapora. Comprar e vender eletronicamente. Todas as lojas e empresas sofrem prejuízos há meses, mas se você fechar pode ser expropriado, é um círculo vicioso".

O salário de Salomon, seu marido e vice-presidente de uma empresa de exportação e importação de Harare, da etnia shona, é de 1,8 bilhão de dólares de Zimbábue por mês (quase 2 mil euros no câmbio real), mas o de seus empregados não chega a US$ 20. "Os ajudamos a conseguir açúcar, farinha e café a preços de custo, já que podemos comprar no atacado", explica, "e lhes damos o transporte, caso contrário não viriam trabalhar, não compensa."

O rumor é verdadeiro, o trem de Bulawayo -com seus vagões azuis construídos na Inglaterra nos anos 1950, painéis de madeira e o velho logotipo colonial das Ferrovias da Rodésia ainda inscrito nas janelas- realmente descarrilou. Mais um dia sem pão nem café. A multidão se dissolve resignada e volta a suas tarefas cotidianas em um país destroçado onde sobreviver já é uma vitória.

"Que o Senhor leve Mugabe logo", pede Julius depois de um longo silêncio só perturbado pelo rugido das cataratas Victoria, enquanto indica com o polegar o infinito céu africano.

Benefícios por apoiar o ditador
Robert Mugabe continua agarrado ao poder aos 84 anos, não cumpriu a prometida reforma constitucional e convocou para 29 de março eleições à sua medida e nas quais se desconhece se participará o partido de oposição MDC, dividido em duas facções (a de Morgan Tsvangirai e a de Arthur Mutambara).

"Este é um país eminentemente rural", explica George, um motorista que leva turistas a Zâmbia, "onde dois terços da população vivem no campo com uma economia de subsistência. Para essa gente dá na mesma que não haja dinheiro em circulação: não o utilizam. Cultivam milho, têm algumas galinhas, e com isso comem."

É dai que Mugabe e seus sequazes do ZANU-PF (o partido oficial) tiram os votos para ganhar as eleições, ou pelo menos as manipulam com registros de mortos de Aids -o que é fácil, já que dois quintos da população têm o vírus e mais de 600 pessoas são contaminadas por dia. O ditador mantém essa maioria silenciosa seduzida à base de pequenos presentes -ferramentas agrícolas, alimentos, gasolina, peças para tratores, subvenções à moradia...- que só são concedidas aos que o apóiam. A vida média não chega aos 40 anos e a inflação é de 8.000% Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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