Dinossauros despertam na China

Luis Á. Fernández Hermana

A China tem dois extremos atípicos que produzem uma riqueza nunca vista nas áreas rurais do país. De um lado estão os campos de Liaoning, de onde saem dinossauros (fósseis, é claro) como se fossem cebolinhas em maio. De outro, encontram-se as terras dedicadas ao cultivo de produtos destinados a uma emergente e florescente indústria farmacêutica baseada na biotecnologia. Nos dois extremos a economia se move com números desconhecidos em outros setores da agricultura chinesa e experimenta tensões criadas e sofridas por todos os atores.

Os preços dos produtos de biotecnologia não têm nada a ver com as receitas dos agricultores que estão no início dessa cadeia, apesar de suas condições serem melhores que as da vasta maioria dos agricultores do país. As tensões já afloraram várias vezes, sobretudo nos últimos três anos. Mas onde as coisas estão ficando realmente quentes é no negócio de fósseis. Os agricultores da vasta província de Liaoning descobriram há uma década (e os cientistas suspeitam que há muito mais) que é mais rentável escavar ossos de velociraptores do que cebolinhas. Basta ver os campos cheios de buracos para comprovar que, embora ninguém cite números confiáveis, o comércio de fósseis movimenta, segundo estimam os paleontólogos mais assíduos no lugar, centenas de milhões de dólares nos anos de "boa safra".

Tuca Vieira/Folha Imagem - 23.jan.2006 
Réplica de esqueleto de dinossauro que fez parte de exibição em São Paulo

As descobertas abriram o livro que se estende além dos 60 milhões de anos, antes que o meteorito, ou seja o que for, tirasse essas criaturas de cena. Mas aquela crise planetária catastrófica começa a repercutir hoje entre os atores da fenomenal indústria que cresceu ao redor do comércio de fósseis. O maior problema é decidir quem é o proprietário das descobertas, porque dessa decisão depende quem integrará a cadeia de comércio legal e quem serão os contrabandistas e seus possíveis clientes.

Há um ano o governo chinês promulgou uma lei que declarava que todos os fósseis eram propriedade do Estado. Aí caiu outro meteorito. Há dois meses sete agricultores foram presos por se opor a funcionários do governo que queriam confiscar os fósseis que guardavam. Todos sabiam que esperavam sua saída para o mercado negro, mas enquanto os funcionários diziam que se tratava de um tesouro nacional os agricultores, que ganham com um bom osso o triplo do que com 20 boas colheitas (isso são muitos anos), diziam que laranjas da China e eles eram os donos do que descobriam. Não agora com a nova lei.

Liaoning é uma jazida muito rica e dezenas de milhões de agricultores compreenderam em pouco tempo que a agricultura que pode tirá-los da pobreza é a que faz brotar dinossauros. Isto quer dizer que os nativos nem mesmo esperam que os paleontólogos venham. Quando os especialistas chegam a muitas regiões dessa vasta província encontram uma paisagem lunar e diversas ofertas da escavação embrulhadas em papel de presente, se necessário. Igualmente vendem os fósseis para cientistas, sobretudo dos centros científicos chineses, como aos Indiana Jones do momento, que compram para centros de pesquisa, museus ou colecionadores particulares de qualquer parte do mundo. Ninguém sabe as dimensões reais do espólio.

A ironia é que cada vez que os cientistas fazem chegar suas conclusões às revistas "Nature" ou "Science", causando a admiração de seus colegas, de passagem encarecem o mercado de fósseis e abrem o caminho para mais contrabando. É verdade, como reconhecem muitos paleontólogos que trabalham na região, que os camponeses aprenderam muito nestes anos e já não escavam a esmo. Costumam ser muito cuidadosos e sabem que o valor da mercadoria está não só na integridade das peças individuais como na possibilidade de armar quebra-cabeças que terminem em um esqueleto completo. De fato, muitos das grandes e espetaculares descobertas relacionadas a dinossauros emplumados se devem a agricultores que ganharam inclusive citação nos artigos científicos por sua tenacidade e persistência.

O problema, segundo os cientistas, é que os agricultores hoje sabem o que vale um bom osso e quem está disposto a pagar. E se não o encontram o inventam. Como quando colaram partes que nunca estiveram unidas e apareceu um ser ancestral que nunca existiu. Quando se descobre a fraude, os cientistas já pagaram, foram embora entusiasmados com sua peça para o laboratório e tempos depois descobrem que o arqueoraptor que havia deixado todo mundo de boca aberta na realidade era, no mínimo, dois animais diferentes bem colados. É o que aconteceu com a "National Geographic" quando comprou um dinossauro que tinha cauda e corpo de pássaro. Foi declarado um elo perdido. O fóssil chegou aos EUA depois de ser comprado de um contrabandista do qual nunca se soube o nome. Mas, enquanto crescia o entusiasmo pela descoberta, cientistas do Instituto Xu Xing de Pequim disseram que tinham descoberto um dromossáurio com uma cauda idêntica. A "National Geographic" teve de guardar esse filme depois de uma vergonhosa entrevista coletiva em janeiro de 2000 e nunca declarou o que havia lhe custado a brincadeira.

Hoje as autoridades chinesas, os museus nacionais e as sociedades científicas chinesas e internacionais estão discutindo como reforçar a lei de patrimônio nacional criando bolsas de dinheiro que lhes permitam adquirir o que for descoberto pelos agricultores. Se essa política, atualmente em discussão, não chegar a bom termo, não é mistério o que vai ocorrer: os agricultores trabalharão para o mercado negro para obter a compensação que eles crêem que merecem e da qual dependem para sair do poço em que viveram durante séculos, cultivando a terra quase no nível de sobrevivência. Coisa que não esperavam que acontecesse, graças a animais que viveram há até 60 milhões de anos. Paleontólogos da província de Liaoning calculam que em anos de boa colheita o comércio de fósseis movimenta centenas de milhões de dólares. Para os agricultores locais é mais rentável escavar ossos de dinossauros do que plantar cebola Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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