Atletismo no Quênia: as conseqüências de um país em crise

Sergio Heredia
Em Barcelona

Duas circunstâncias colaboram contra os fundistas quenianos, gente que freqüenta os caminhos de argila vermelha do vale do Rift, preparando-se para os próximos Mundiais de cross, em Edimburgo, daqui a dois meses: têm dinheiro, são praticamente milionários, têm casas, carros e tratores, e a maioria pertence à etnia dos kalenjin; nada a ver com os kikuyus, majoritários na região. Por isso estão em perigo.

O perigo é real, tangível e evidente. A democracia queniana, tradicionalmente celebrada no âmbito internacional, naufragou. Não há acordos entre o presidente Muai Kibaki, um kikuyu, e Raila Odinga, o adversário da etnia luo que o acusa de fraude na última eleição, em 27 de dezembro. Eldoret, a 2.200 m de altitude, no oeste do país, terra de cafezais e atletas magníficos, está angustiada. Dizem que os kalenjin, ligados ao opositor, queimaram as terras dos kikuyus. E estes se rebelaram.

A conta-gotas, algumas histórias chegam ao Ocidente. Perseguidas por uma multidão enfurecida, 30 pessoas, na maioria crianças, acabaram queimadas enquanto buscavam refúgio em uma igreja próxima do centro de Eldoret. O caos é geral. Os atletas se encerraram em seus campos de trabalho. Não podem sair para treinar nos caminhos de terra. E quando aparecem no exterior o fazem em grupos de 40, com o olho aguçado e o coração na mão. Contam que apedrejaram até a morte Lukas Sang, campeão olímpico nos 400 m e no revezamento 4x400 m em Seul'88 e Barcelona'92. Que assassinaram com uma flecha envenenada o maratonista Wesley Ngetich. Que atacaram Luke Kibet, campeão do mundo de maratona nos últimos mundiais de Osaka, no verão passado. "Kibet teve sorte", disse David Kipelio, ex-atleta, treinador e representante dos corredores. "Está grave, mas viverá." William Mutwol, bronze nos 3 mil m com barreiras em Barcelona, recebeu um recado em seu telefone: "Queremos sua cabeça".

Noah Ngeny, campeão olímpico dos 1.500 m em Sydney 2000, diz que seu grupo de atletas está vivo por milagre. "Estávamos em um ônibus público quando nos atacaram. Escapamos, ainda não sei como. Desde então, não saímos de nossos campos, e assim não podemos ser competitivos."

"Do ponto de vista psicológico, isso vai nos matar", diz Priscah Jepleting, um fundista importante. "Eu treino aterrorizada. A qualquer momento posso levar um tiro. E como vou competir nos Mundiais de cross (30 de março) pensando que ao voltar talvez não veja minha família...?" Os números são incertos. Dizem que os distúrbios já custaram 800 vidas. Correndo no quarto: os fundistas quenianos do vale do Rift se refugiam em seus campos de treinamento por medo da guerra. A violência étnica custou a vida de dois atletas de elite Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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