Bushismo sem Bush?

Eusebio Val
Do La Vanguardia
Em Atlanta, Geórgia

John McCain ignora seus rivais para a nomeação e prefere disparar contra Hillary Clinton e Barack Obama. O veterano herói do Vietnã -quando ficou com deficiência física e até hoje precisa de ajuda para pentear-se- está demonstrando aos EUA e ao mundo que alguém tão próximo de George W. Bush em sua estratégia para o Iraque tem a Casa Branca ao seu alcance.

Em seu comício em Atlanta, antes da Superterça, diante de uma platéia 99% branca -apesar de seis em cada dez habitantes da cidade serem afro-americanos-, o senador pelo Arizona se apresenta como defensor do livre comércio. Também destaca sua vontade de reduzir os gastos e acabar com o "toucinho" que condimenta muitas leis. Essa palavra gráfica é usada para as verbas orçamentárias multimilionárias para projetos locais que os congressistas aprovam sem debate. É uma maneira de premiar sua clientela, mas houve abusos escandalosos. "Os republicanos não perdemos as eleições de 2006 devido ao Iraque", afirma McCain. "Perdemos pelo descontrole total dos gastos."

Gary Rothstein/EFE - 21.jan.2008 
O republicano John McCain acena ao chegar a restaurante em Miami

Não é a economia, porém, a paixão de McCain. Aos 71 anos, sente-se o homem providencial para guiar os EUA na "luta transcendental" contra o extremismo islâmico. "É um dos maiores desafios de nossa história", adverte.

Nesse campo, McCain significaria a continuidade do bushismo sem Bush. Embora tenham tido diferenças táticas, o senador se atreve a invocar o presidente impopular, entre aplausos do público: "Vocês não acham que George Bush merece certo crédito pelo fato de não termos sofrido outro ataque? Estou orgulhoso do trabalho do presidente. Creio que estamos mais seguros do que antes".

Sua maior censura a Obama e Clinton é que "querem se render, querem mostrar a bandeira branca para os terroristas". "Eu nunca me renderei como presidente dos EUA", arremata com um público dominado. Sobre Bin Laden, promete que o seguirá "até as portas do inferno".

McCain pode dar um golpe quase definitivo em Mitt Romney. Este ganhou no sábado a assembléia partidária (caucus) do Maine, mas se considera uma vitória menor, pouco significativa. Os ventos sopram a favor de McCain. Ele se sente muito orgulhoso de ter jogado sua carreira política há um ano. "Prefiro perder uma campanha do que uma guerra", disse então, quando se pôs ao lado de Bush com paixão, para enviar reforços ao Iraque. Lá as mortes não param, mas a percepção dominante é que houve uma melhora substancial. McCain sente-se vingado.

Em política externa, o senador seguiria Bush, mas talvez com maior credibilidade e menos arrogância. McCain invoca os princípios de "honra, dever e país", que podem parecer fora de hora na Europa mas aqui ainda pesam muito. Propõe aumentar o exército em 150 mil homens, gastar mais em defesa e criar uma Liga de Democracias para atuar onde a ONU não alcance. Quer manter a ajuda a Israel para que mantenha sua superioridade militar, e não descarta atacar o Irã.

Em um artigo na revista "Foreign Affairs", McCain escreveu que "trabalhar multilateralmente pode ser uma experiência frustrante, mas enfrentar os problemas com os aliados funciona melhor do que sozinhos". Nesse sentido lembrou a instalação dos euromísseis na Europa nos anos 1980, ou a primeira Guerra do Golfo, que foram possíveis graças à boa sintonia entre Washington e seus aliados europeus, apesar da forte oposição das opiniões públicas.

McCain sonha em ser outro Reagan, um presidente idolatrado pelos republicanos, e não hesita em parafraseá-lo no final do comício em Atlanta: "creio que os dias maiores dos EUA estão à nossa frente. Uma de minhas missões principais será convocar os americanos a servir a uma causa maior que eles mesmos. Farei o possível para garantir que o século 21 seja o século americano e que continuemos sendo, como costumava dizer meu querido Ronald Reagan, uma cidade que brilha sobre a colina". McCain, o favorito republicano, defende com ardor a atual estratégia no Iraque. O senador acusa Hillary e Obama de "mostrar a bandeira branca" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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