"Se Chávez mandar atacar a Colômbia, o exército não obedecerá", diz ex-ministro da Defesa

Joaquim Ibarz
Enviado especial a Caracas

"Descarto uma guerra entre a Venezuela e a Colômbia. Se o presidente Hugo Chávez quisesse empreender uma intervenção armada contra a Colômbia, o exército não apoiaria uma aventura dessa natureza e desobedeceria a uma ordem contrária à vocação pacifista de nosso povo", afirma o general Raúl Baduel, militar que foi decisivo para que Chávez aceitasse sua derrota no referendo de 2 de dezembro passado. "A Venezuela é o único país americano que nunca teve um conflito armado com seus vizinhos", salienta.

Com Baduel não se cumpre o ditado de que um general aposentado tem menos autoridade que um policial urbano. Esse militar, que recolocou Chávez no poder depois do golpe de abril de 2002, mantém grande ascendência sobre os quartéis. Desde que o presidente venezuelano apoiou no Congresso as Farc, a guerrilha colombiana que se financia com narcotráfico e seqüestros, Baduel teve reuniões com oficiais da ativa que expressaram sua preocupação.

El País - Chávez poderia desencadear uma intervenção militar contra a Colômbia?
Raúl Baduel -
As palavras do presidente sobre o risco de uma guerra com a Colômbia são um estratagema com finalidade política pessoal. Pretende desviar a atenção dos graves problemas que há no país conforme se aguça a crise política, econômica e social.

EP - Em que se baseia esse estratagema?
Baduel -
De maneira imprópria, o presidente utiliza o nacionalismo para reeditar situações já superadas de confronto com a Colômbia. Com patriotadas, tenta recuperar o apoio popular que ele sabe que perdeu. As pesquisas indicam que desde que perdeu o referendo da reforma constitucional sua popularidade despencou para 21%. É irresponsável apelar para o nacionalismo para recuperar sua imagem. A Colômbia atua com grande prudência, de forma apropriada, ao ignorar as palavras de Chávez. O apoio do presidente às Farc pode afetar nosso território e gerar violência.

EP - Por que na Colômbia e na Venezuela ninguém faz caso de Chávez quando fala em risco de guerra entre os dois países?
Baduel -
Os dois povos dão mostras de maturidade. Há muitas coisas que unem a Venezuela e a Colômbia, a começar por nossa mesma origem histórica. Não é retórica dizer que somos povos irmãos. Por isso ninguém leva a sério as ameaças do presidente.

EP - O que lhe disseram os oficiais da ativa com os quais se reuniu depois do apoio de Chávez às Farc?
Baduel -
Há muita intranqüilidade, inquietação e confusão. O presidente é o comandante-em-chefe das forças armadas e além disso vem das fileiras do exército. Em 2004 disse que nunca havia apoiado e nunca apoiaria as Farc. Os oficiais enfrentam um dilema com essa mudança de posição.

EP - O que pensam os oficiais venezuelanos do fato de a segurança de Chávez estar a cargo de militares cubanos?
Baduel -
Causa mal-estar e rejeição. Posso dar fé da vocação democrática de nossos oficiais, que sabem que a Constituição salienta que as forças armadas estão a serviço da nação, e não de qualquer parcialidade política. Nossos soldados rejeitam a cada vez mais evidente intromissão dos cubanos nos assuntos de nosso país.

EP - Chávez não confia nos militares venezuelanos, para se rodear de cubanos?
Baduel -
É óbvio e elementar que o que se depreende dessa presença de cubanos é que ele não confia nos militares venezuelanos.

EP - Na derrota de Chávez no referendo em 2 de dezembro foi determinante a rejeição dos venezuelanos a um regime totalitário como o cubano, que era dado como modelo?
Baduel -
Definitivamente sim. Na consciência coletiva do povo venezuelano atuou o sentimento de que lhe queriam impor o modelo cubano. O presidente disse que Cuba e a Venezuela são a mesma nação, que são o mesmo povo. E as pessoas rejeitam isso. Os venezuelanos ratificaram mais uma vez sua vocação democrática. Há mal-estar porque ainda não foram divulgados os resultados finais do referendo; 16% dos votos não foram contabilizados, o que permite crer que a derrota de Chávez foi maior do que se disse.

EP - Na Venezuela há uma falta aflitiva de produtos básicos como alimentos e leite. O exército é utilizado para distribuir comida para milhares de pessoas que fazem fila durante horas, em cenas que lembram a faminta Biafra. Como se chegou a essa deterioração?
Baduel -
A Venezuela é um pobre país rico. A crise econômica, política e social se aguça porque caiu a produção. Não só os setores mais pobres sofrem para conseguir comida, a escassez já afeta toda a população. Há um consumismo desenfreado, provocado pela instabilidade e a incerteza no futuro. O desabastecimento é grave. Causa vergonha que a Guarda Nacional distribua comida confiscada para 10 mil pessoas que fazem fila em um estádio. "Seu apoio às Farc provoca inquietação, confusão e intranqüilidade em nossos quartéis", acrescenta Raúl Baduel Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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