UOL Notícias Internacional
 

11/02/2008 - 00h05

Prêmio Nobel diz ter sido mais feliz quando era louco

La Vanguardia
Lluís Amiguet
Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:

La Vanguardia - Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash -
Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma interdisciplinar.

LV - Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash -
Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.

IDAS E VINDAS
Divulgação
Russel Crowe em cena do filme "Uma Mente Brilhante"

"É um gênio": foram as três palavras com que o recomendaram a Princeton. Sua irmã, ao saber, acrescentou: "É muito estranho". Aos 21 anos, enunciou a tese de equilíbrio que desbancou Adam Smith e fundou a economia moderna. Participou como cientista militar até o delírio -literal- na Guerra Fria que sua esquizofrenia paranóica simboliza à perfeição: acabou acreditando ser perseguido por conspiradores comunistas. Internado depois de uma crise psicótica, passou 30 anos alheio, vagando pelo campus de Princeton, onde o apelidaram de o fantasma. Conseguiu recuperar a sanidade de forma milagrosa e suficiente para receber o prêmio Nobel em 1994. É o ser mais inquietante que conheci.
LV - Quais?
Nash -
Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim, mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.

LV - E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash -
Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada concretamente; mas pode observar um comportamento normal.

LV - Como se manifestou esse transtorno?
Nash -
Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.

LV - A que se refere?
Nash -
Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz louco do que são.

LV - Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash -
Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em disfuncional.

LV - Disfuncional em que sentido?
Nash -
É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo: trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos...

LV - Há exceções.
Nash -
Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você pensaria?

LV - Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash -
Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será considerado anormal por isso.

LV - Certamente.
Nash -
A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.

LV - A maioria tem senso comum.
Nash -
Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária...

LV - Continua sendo, sim.
Nash -
... mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.

LV - A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash -
Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.

LV - Sem dúvida.
Nash -
Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi considerado um anormal, um louco.

LV - Creio lembrar-me que sim.
Nash -
Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu talento.

LV - ...
Nash -
No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo suspeito: não se casou, era estranho...

LV - O senhor acredita que Newton precisava de medicação?
Nash -
Era Newton, mas nem todos os doentes são gênios. Muitas vezes a diferença entre um louco e um gênio esteve na quantidade de dinheiro que ganhava. Van Gogh acabou se suicidando também por ser pobre, e hoje meu filho recebe um subsídio federal que eu não ganhei porque não existia. Esse subsídio é importante para evitar que um doente mental seja marginalizado por não ser rico e não trabalhar.

LV - O que o senhor achou do livro e do filme sobre sua pessoa, "Uma Mente Brilhante"?
Nash -
O livro foi feito sem contar comigo, e embora a autora tenha acumulado uma quantidade de informações notável também acumulou uma quantidade notável de erros.

LV - E o filme com Russell Crowe?
Nash -
Os autores foram mais cooperativos conosco. Assinamos um acordo com a Universal Studios. Isso não quer dizer que esse filme tenha muito a ver com a minha vida.

LV - Isso não pareceu importar muito a eles...
Nash -
... a ninguém exceto a mim. Na realidade, tem muito pouco a ver com a minha vida. Você acredita que me pareço com Russell Crowe? Mas é um filme com valores estéticos e uma boa mensagem proativa para os doentes mentais.

LV - Em que trabalha agora?
Nash -
Questiono o conceito keynesiano de inflação. Também me interessa a teoria das cordas da física teórica e suas derivações na antropologia e nas ciências sociais.

LV - Conte-nos, por favor.
Nash -
Talvez o universo não seja indiferente à nossa existência: temos um instinto descobridor manifesto na colonização da América que nos levará para fora do planeta antes que ele entre em colapso.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,06
    3,789
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,41
    99.588,37
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host