UOL Notícias Internacional
 

14/02/2008 - 01h49

O assassinato da literatura, segundo Todorov

La Vanguardia
Justo Barranco
Em Barcelona
"Estamos assassinando a literatura." Ou "na escola hoje não se aprende de que falam os livros, mas de que críticos falam." São duas das afirmações que Tzvetan Todorov (nascido em Sófia, Bulgária, em 1939), um dos teóricos da literatura com maior influência nas últimas décadas, lança em seu último livro, "La literatura en perill" (editora Galáxia Gutenberg), recém-apresentado junto com "Los aventureros del absoluto", um ensaio sobre Wilde, Rilke e Tsvietaieva. Todorov diz que "La literatura en perill" não é um "mea culpa", mas que se sente "um pouco responsável" pela situação atual. "Nos anos 60 e 70 tentei equilibrar os estudos literários -então divididos em países e séculos- contribuindo com uma abordagem mais interna da literatura", de suas estruturas e formas.

A partir da situação da literatura na França de hoje, de seu ensino, seus críticos e certas correntes dos escritores atuais que parecem não lhe agradar muito, Todorov, que vive nesse país desde 1963, se interroga, segundo diz, "sobre a própria identidade da literatura em nosso mundo contemporâneo". "No livro estudo a evolução da literatura desde o século das luzes até o presente, e essa evolução parece levar a uma separação entre a literatura e a vida dos homens e mulheres comuns. E eu evidentemente defendo a tese oposta: que a literatura está profundamente ligada à compreensão da condição humana. Se não, já teria desaparecido", afirma.

"Os alunos na escola não compreendem por que têm estudos literários, de letras, nos quais aprendem figuras de retórica ou procedimentos narrativos. Pensam que os preparam exclusivamente para a profissão de professor de literatura. E é absurdo que seja assim, porque a literatura não serve para preparar professores de literatura. Ao contrário, é para um melhor conhecimento do ser humano, e disso todos temos necessidade", lamenta.

Ele indica que "demonstra certa falta de humildade o fato de impor nossas próprias teorias sobre as obras, em vez das obras em si". "Voltar a centrar o ensino das letras nos textos corresponderia, sem dúvida, aos desejos ocultos da maioria dos professores, que escolheram seu ofício porque amam a literatura. É a literatura que está destinada a todo o mundo, e não os estudos literários", reclama.

Escritores e críticos
Mas, diz Todorov, "a concepção redutora da literatura não se manifesta só nas aulas das escolas ou das universidades; também é representada em abundância entre os jornalistas que resenham os livros e inclusive entre os próprios escritores". Nesse sentido, salienta, "houve uma evolução que faz que os criadores dêem a impressão de escrever para a crítica, algo que também acontece com a pintura e a arte conceitual".

E ataca três correntes de escritores: os formalistas, nos quais a literatura só fala dela mesma, com construções engenhosas, simetrias e ecos diversos; a corrente niilista, "segundo a qual os homens são estúpidos e malvados e a destruição e a violência mostram a verdade da condição humana, vendo a vida como o advento de um desastre"; e uma vertente do niilismo: o solipsismo, no qual "quanto mais repugnante for o mundo mais fascinante é o eu". O autor solipsista, diz Todorov, "descreve em todo detalhe suas mínimas emoções".

E o assunto, diz ele, "não é que a literatura seja uma técnica de cura anímica, mas pode transformar cada um de nós por dentro". Acrescenta que "o leitor comum, que continua buscando nas obras que lê algo que dê sentido a sua vida, tem razão de se opor aos professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma, ou que só ensina a desesperança". Porque, na opinião de Todorov, "o que os romances nos dão não é um novo saber, mas uma nova capacidade de comunicação com seres diferentes de nós". "E pensar e sentir adotando o ponto de vista dos outros, pessoas reais ou personagens literários, é o único meio de caminhar para a universalidade, e isso inclui os livros que o crítico profissional considera com condescendência, senão com menosprezo, desde 'Os Três Mosqueteiros' até 'Harry Potter'".

Todorov "aconselharia [os professores] a partir de textos em que haja um interesse evidente para os alunos e ir progressivamente para textos mais distantes, de mundos que lhes sejam mais estranhos. E falar do que falam os livros e não só do livro. Creio que todos os alunos podem se reconhecer nas histórias de identidade, amor, depressão ou violência que os livros contam. É preciso fazer que os alunos voltem a encontrar o interesse pela literatura."

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host