A Washington negra e pobre analisa a candidatura Obama

Eusebio Val
Do La Vanguardia
Em Washington

Bairros como o de Anacostia nunca saem nas fotos da capital neo-imperial americana. De Washington são famosas as imagens da liturgia do poder, do culto à própria história: o presidente no Jardim das Rosas da Casa Branca, a cúpula iluminada do Capitólio, a beleza geométrica dos monumentos de mármore no Mall. Mas a poucos minutos de carro, atravessando o rio Anacostia, aparece o rosto de uma das cidades mais segregadas dos EUA, os bairros afro-americanos mergulhados na pobreza e na violência. Bush só os sobrevoa de helicóptero durante um curto trajeto entre a base aérea de Andrews e a mansão presidencial. Para a imensa maioria dos brancos, que vivem em outras áreas, esse é um terreno que jamais pisam.

A escola elementar Ketcham, com 360 alunos -todos afro-americanos-, é colégio eleitoral para as prévias. Não se vê nenhum branco nas ruas, com exceção de um casal de aposentados, de uma organização de caridade da Virgínia que trouxe material doado para os alunos.

Isto deveria ser um bastião de Barack Obama. Mas Dirk, de 27 anos, e seu amigo Mike, de 45, parecem céticos sobre a possibilidade de que nada pode mudar. Matam o tempo em um cabeleireiro unissex, à espera de clientes. Sua grande preocupação é o constante roubo de veículos no bairro. "Precisamos de uma punição mais severa para nossos jovens que roubam carros e os destroem", afirma Dirk. "A polícia os detém e volta a soltar." "A situação se deteriorou nos últimos anos", confirma Mike.

Em Anacostia, como em toda Washington -com quase 60% de população afro-americana-, vigora o toque de recolher noturno para menores de 17 anos. Se a polícia os vê perambulando pelas ruas pode aplicar multas ou detê-los. É uma tentativa de conter o crime. Os assassinatos e tiroteios fazem vítimas quase diariamente.

"Como Barack Obama pode mudar um bairro em que ele nunca viveu, nem sequer visitou?", pergunta Dirk. "Assim como Bush. Nunca pisou nestas ruas. Nunca vi uma caravana presidencial por aqui, interessando-se em como pode mudar esta área de Washington. O único que pode fazer isso é quem fizer de dentro."

Neil, engenheiro aposentado, confessa que vai votar em Obama porque "é mais justo", mas adverte que ele terá dificuldade para ganhar. "Os EUA são um país racista", constata. "Esse é o único motivo pelo qual talvez ele não consiga. Sim, o voto jovem o ajudará. Mas os velhos trabalhadores, maiores de 60 anos, ainda são racistas. E serão até sua morte." Sua mulher, Marlene, ex-encarregada de banheiros masculinos, é mais otimista: "Tenho confiança em que (Obama) nos unirá e poderemos todos desfrutar da vida, que é curta demais. Devemos parar com besteiras".

Rosie Hyde, que foi funcionária judicial durante 32 anos e se dedicou a revisar condenações de liberdade condicional, está feliz e assustada ao mesmo tempo com o sucesso do senador Obama. "É um momento fenomenal para nosso país, ver como Barack Obama uniu etnias, raças, culturas", salienta. "Lembro-me da era do rock'n'roll, que fez mais pelas relações raciais neste país que nenhuma outra época. As pessoas percebem que há mais coisas que nos unem do que nos separam. Os jovens afro-americanos, hispânicos, europeus aceitam melhor a diversidade. O mundo tornou-se menor, talvez graças à Internet. O curioso é que Obama ganhou o voto dos jovens e dos homens brancos. A Ku Klux Klan apóia Obama! O que você acha disso?"

"Acredita realmente que Obama pode conseguir chegar à Casa Branca? Uma coisa é ganhar a candidatura democrata, outra as presidenciais..."

"Sim, pode, mas creio que então terão de matá-lo."

"Não diga isso, por favor..."

"Tivemos muitas tragédias neste país. Mataram todos os líderes negros. Todos os que quiseram derrubar as barreiras dos preconceitos e do racismo têm de morrer porque não se ajustam ao perfil dos neoconservadores." Os bairros afro-americanos do sul da capital estão mergulhados em segregação, pobreza e violência. "Terão de matar Obama, como todos os líderes negros", prevê uma eleitora Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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