A arte brasileira na Espanha: nem tão alegre, nem tão sensual

Teresa Sesé
Em Madri

Quem disse que a arte brasileira era toda cor, alegria e sensualidade? Por trás dos lugares-comuns não costumam se esconder grandes verdades, mas no caso da cena artística brasileira a coisa se afoga em puro clichê folclórico.

"Há muita introspecção e melancolia, grandes contradições e algo tão inapreensível quanto a fragilidade: o nosso é um país violento e de fortes desigualdades", explica Moacir dos Anjos, curador com Paulo Sérgio Duarte da presença do Brasil no Arco, enquanto alguns passos além Gilberto Gil refere-se ao panorama artístico brasileiro como um dos mais vitais do mundo.

Vital, sim. Mas diante dos trabalhos da centena de artistas convidados o ministro da Cultura poderia ter acrescentado que a criação brasileira ferve em temperaturas elevadas e que, como o próprio país (quase um continente), é diversa e mestiça, que há lugar para a arte poética e a política, a formal e a canalha, a figurativa e a abstrata, a pura e a impura, a contemplativa e a provocadora, a eletrônica, a pintura, a escultura, o vídeo, a performance...

Philippe Desmazes/AFP - 14.feb.2008 
Bin Laden feito com ursinhos de pelúcia da artista brasileira Marta Neves exposto no Arco

Efetivamente, salienta Dos Anjos, "é uma aposta na diversidade, com artistas de trajetórias, procedências e gerações muito diferentes. Nem sequer estão os mais conhecidos, que já têm uma presença nos mercados internacionais. E se alguma riqueza tem essa exposição é exatamente essa: rompe com o clichê do brasileiro e permite descobrir o que até agora era desconhecido". E lança ainda outra reflexão, útil como bóia de navegação durante o percurso: "No Brasil, à diferença de outros países ibero-americanos, não há uma tradição de arte política, no sentido de representar as condições de vida, mas em troca tudo leva impressas as marcas da improvisação, da ambigüidade, da violência ou as desigualdades que marcam a vida no Brasil".

As 32 galerias brasileiras que participam de Arco, na grande maioria de São Paulo e Rio de Janeiro, ocupam 1.000 m2 do segundo andar do pavilhão 14, formando um percurso delimitado pelo tapete cinza, de uma tonalidade mais clara que o resto. Não é um detalhe tolo. A última quarta-feira (13/02) foi o primeiro dia de portas abertas para colecionadores e imprensa, e uma das galerias brasileiras que atraía mais olhares era a de Manoel Macedo, de Minas Gerais, em cujo interior brilhava um gigantesco retrato de Bin Laden realizado com delicados bonecos de pelúcia. A obra é de Marta Neves, também brasileira, e se situa na vizinhança, apesar de não fazer parte da mostra oficial.

Mas, diferentemente do que acontece no resto da feira, onde se tropeça igualmente com um Fidel Castro de pulôver, como lhe assalta uma cena de sofá protagonizada por um Bush nu, no Brasil não há espaço para os grosseiros. Ao contrário, há bastante poesia, como nas fotos e esculturas sonoras de Lenora de Barros, a meio caminho entre as artes visuais, a poesia e o humor, e cuja obra faz parte da coleção do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona.

Igualmente sutil, apesar de tratar de questões como o sexo, a violência ou a morte, Tunga, um dos artistas convidados que gozam de maior reconhecimento internacional (com exposições na Documenta ou no Louvre), propõe um jogo visual com ímãs, e José Patrício cobre parcialmente o solo do estande com um belíssimo mosaico feito com dominós de diversos tamanhos.

Não é o único que utiliza elementos cotidianos em suas criações. Embora talvez o caso mais paradigmático seja o de Barrão, que se apropria de objetos de consumo (desde eletrodomésticos a xícaras de chá, como esse colar que apresenta aqui no Arco) aos quais primeiro subverte o sentido e depois lhes dá uma nova oportunidade através da ironia e do humor. Uma espécie de reciclagem criativa que também utiliza Felipe Barbosa, autor de um urso construído com as típicas bombinhas de São João, que no Brasil são usadas para celebrar as festas de junho; enquanto Marco Paulo Rolla leva para o terreno performático uma cena de piquenique, reproduzida nos mínimos detalhes, incluindo a toalha xadrez, em porcelana.

Mas o Brasil também é terra de pintores, e no Arco, sua porta de entrada para a Europa (Art Basel Miami faz tempo que está de olho), celebra a potência criativa de Lucia Laguna, artista de 65 anos que começou sua carreira artística há dez, quando deixou as aulas pelos pincéis, e cujas paisagens urbanas são do mais fresco e vigoroso na cena contemporânea de seu país.

E, é claro, há caveiras, como as que, realizadas com pequenos espelhos, encerra em um sarcófago transparente Albano Alfonso junto com um monte de ossos (muito anterior à de Damien Hirst, esclarece seu galerista), ou a muito mais leve de Franklin Cassaro, condenada a sobrevoar eternamente em uma jaula de arame. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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