Para astrólogo arquetípico, a nossa psique é a respiração do cosmos

Víctor-M. Amela

Esta semana completo 58 anos. Nasci em Genebra e vivo na Califórnia. Sou doutor em filosofia e psicologia por Harvard. Sou casado e tenho dois filhos, de 33 e 20 anos. Sou um progressista liberal. Tenho um profundo senso do divino, que descubro desdobrando-se na psique, no cosmo. A entrevista:

La Vanguardia - Os astros influem em minha vida?
Richard Tarnas -
Você e eles estão conectados.

LV - E determinam o que faço?
Tarnas -
Não é isso. Veja: que horas são?

LV - Hã? 12 e 30...
Tarnas -
E como soube disso?

LV - Olhando para aquele relógio.
Tarnas -
E os ponteiros daquele relógio causam as 12 e 30?

LV - Não.
Tarnas -
Pois é o que acontece com os astros: não causam nada, são os ponteiros em que podemos ler as horas arquetípicas do cosmo.

LV - Mas uma coisa é o cosmo e outra, eu.
Tarnas -
Ah, aqui você expressa a paixão da mente ocidental: ela quis desligar-se do cosmo até sentir-se autônoma e deixar o cosmo como um mecanismo externo e inanimado. Algo absolutamente irreal!

Desde seu ensaio "La pasión de la mente occidental" (1991), Richard Tarnas é lido e discutido no mundo anglo-saxão. Ele logo será traduzido pela editora Atalanta, que entretanto nos adianta "Cosmo y psique", que documenta nossa divisão cartesiana do cosmo, o que foi útil ao alto preço de nos isolarmos: hoje alguns voltam a intuir que não há uma psique dentro e um cosmo fora, mas uma dinâmica integrada da qual a astrologia pode traçar diagramas. A mim, por enquanto, basta ver a astrologia como prova da fértil imaginação de nossa psique, insaciável leitora do cosmo... Mas também é verdade que nossa imaginação é uma eclosão do cosmo muito imaginativo...
IMAGINAÇÃO
LV - Por quê?
Tarnas -
Porque somos cosmo em forma humana! Somos o modo como o cosmo se faz consciente de si mesmo. Gosto da maneira como formulou o filósofo Plotino (século 3): "Tudo respira em uníssono".

LV - Mas Saturno é um pedregulho inanimado, enquanto eu sou minha psique.
Tarnas -
O que você chama de "minha psique" não é nada além da respiração do cosmo. O cosmo e a psique são duas formulações de uma mesma e única realidade. E as conjunções dos astros tornam visível a dinâmica cósmica, isto é, a dinâmica arquetípica da psique. É isso que estuda a astrologia arquetípica.

LV - É muito diferente das outras astrologias?
Tarnas -
Seu enfoque concorda com os atuais enfoques da psicologia transpessoal, a física quântica, a teoria do caos e dos fractais, a ecologia e Gaia, a filosofia holística...

LV - Há lugar para a liberdade pessoal?
Tarnas -
É exatamente uma visão participativa do homem no cosmo: cada um de nós é o cosmo em ação. Há uma dinâmica cósmica, uma melodia que cada um interpreta com um estilo. Veja Hitler e Chaplin.

LV - O que acontece com Hitler e Chaplin?
Tarnas -
Nasceram quase ao mesmo tempo, compartilhavam aspectos de suas cartas astrais, e veja de que maneiras tão diferentes os desenvolveram...

LV - Em que se pareciam?
Tarnas -
Ambos tinham dificuldades com a autoridade, tendências tirânicas, dotes artísticos, atração por jovens emocionalmente imaturas, alta capacidade de comunicação...

LV - O senhor me fala de uma dinâmica cósmica. Como funciona, com que mecânica?
Tarnas -
É um mistério! A ciência não chega lá.

LV - De que serve a astrologia arquetípica?
Tarnas -
Para intuir a dinâmica profunda das coisas, assim como um bom surfista intui a das ondas: compreender o passado e o presente nos ajuda a surfar melhor a onda do futuro.

LV - Desde quando existem astrólogos?
Tarnas -
Desde sempre, são observações antiqüíssimas. Antes de ser perseguido por afirmar que a Terra orbitava ao redor do Sol, Galileo foi perseguido por ser astrólogo!

LV - Não sabia disso...
Tarnas -
A Igreja se assustou com as previsões precisas de Galileo: onde ficava a vontade divina, se tudo estava nos astros?

LV - Houve outras mentes eminentes interessadas pela astrologia?
Tarnas -
Platão, Aristóteles, Dante, Goethe, Yeats, Jung, Kepler... a curiosidade de Newton pela astrologia o levou às matemáticas. Nos momentos mais criativos do Ocidente, sempre aflora a astrologia.

LV - Como o senhor chegou à astrologia?
Tarnas -
Durante indagações psicológicas com Stanislav Grof, nos assombrou ver como cartas astrais indicavam episódios de transformação psíquica. E decidi estudar isso, sem me fechar para o incômodo, como fizeram os que criticaram Copérnico.

LV - Que evidências mais o fascinaram?
Tarnas -
Tantas... me impressiona a correlação entre configurações planetárias e era axial.

LV - O que é a era axial?
Tarnas -
Os séculos 6 e 5 a.C. são chamados assim pela formidável eclosão que a humanidade viveu: Sócrates, Buda, Confúcio, Pitágoras, Lao Tse, Zoroastro, o jainismo, os profetas hebreus... Não há um período histórico igual!

LV - E que nos dizem os astros sobre isso?
Tarnas -
Urano, Netuno e Plutão se alinhavam de modo quase perfeito. Observei que os alinhamentos entre dois desses planetas sempre correspondem a revoluções de consciência. E os três ao mesmo tempo...

LV - E como andam hoje esses planetas?
Tarnas -
Plutão e Urano se alinham, o que indica inovações criativas e culturais.

LV - Como esta que o senhor defende?
Tarnas -
As mudanças de paradigma não ocorrem de um dia para o outro, vão calando nas consciências. Copérnico fez essa mesma reflexão sobre seu revolucionário giro.

LV - Dizem que o ano de 2012 será apocalíptico...
Tarnas -
Pode acontecer algo que simbolize o processo de transformações em que já estamos, assim como escolhemos o ano de 1789 para simbolizar aquele longo processo revolucionário.

LV - O que devo esperar dos horóscopos da imprensa?
Tarnas -
Só entretenimento. Eles se concentram no sol no momento do nascimento: equivale a querer abarcar o estado integral de nosso organismo observando só o coração.

LV - Tem sentido dizer "sou de libra"?
Tarnas -
É como se dissesse "sou jornalista". Não está expressando a complexidade de sua pessoa.

LV - Somos leitores do cosmo: a astrologia é uma leitura e ler é criar. Certo?
Tarnas -
Ficou bonito, mas não entenda o cosmo como uma projeção mental: o desenvolvimento da consciência é o desenvolvimento do processo de auto-revelação do cosmo. Richard Tarnas comenta a diferença da astrologia arquetípica para a astrologia tradicional Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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