O dia-a-dia dos cubanos

Fernando García
Em Havana

Como todos os dias, na terça-feira Celia Garcés chegou às 10 da manhã na casa do bairro de Vedado em Havana, cujos inquilinos estrangeiros a empregam em tarefas do lar e no cuidado de duas crianças. A retribuição oficiosa que recebe em pesos conversíveis (100 por mês, equivalentes a RE 188 aproximadamente) resolve para ela e sua família grande parte dos gastos cotidianos.

Celia, de 50 anos, é casada há 30 com Felipe Rivero, 57. Os dois são cubanos brancos, descendentes de espanhóis. Isso dá no mesmo, exceto pelas expectativas que ambos têm de se beneficiar da nova lei espanhola sobre nacionalização de filhos e netos de naturais da mãe pátria; o passaporte grená facilitaria para eles a saída de Cuba. O caso é que Felipe é um cidadão leal à revolução e um empregado exemplar, cujo salário como vigilante em um organismo oficial é seis vezes inferior ao salário irregular de sua mulher.

Celia e Felipe têm um filho de 29 anos, Roberto, que vive em Miami há quase três. Esse quase é crucial, pois três anos são o período que o governo Bush estabeleceu como mínimo que deve transcorrer para que um cubano estabelecido nos EUA possa visitar sua família na ilha. "Isso me deixa arrasada." Celia deixa escapar a emoção, mas a verdade é que a visita que fizemos ao terminal 2 do Aeroporto José Martí, onde se materializam esses encontros e onde se pode ver e ouvir chorar dezenas de pessoas, quase nos vacinou por excesso diante dessa pena nacional.

As remessas que Roberto envia sempre que pode completam o rendimento dos pais, os Rivero Garcés. Se não fosse por essa ajuda e pela retribuição informal que Celia recebe, ela e seu marido teriam muita dificuldade, para não dizer impossibilidade, de chegar ao fim do mês. Sobretudo quando com freqüência falta leite, acaba o sabão ou não há batatas, nem congeladas. "Somos privilegiados", enfatiza a mulher.

A parte mais dura na jornada de Celia e Felipe acontece, paradoxalmente, ao voltar para casa depois do trabalho. Celia só tem de percorrer alguns quilômetros e não vale a pena a horrorosa aventura de esperar e pegar um ônibus. É preciso reconhecer que o panorama do transporte público melhorou nos últimos meses em Havana. Não é o caso dos que ainda são obrigados a tomar o que na realidade são os muito incômodos caminhões de mercadorias pretensamente transformados em "guaguas".

Felipe volta para casa de bicicleta e quando pode passa para pegar sua mulher, dando uma pequena volta. "O ruim é que há algumas subidas. Então baixamos da bicicleta e depois voltamos a montar nela nas descidas. Aí sim é bom", comenta Celia.

Nos fins de semana o casal costuma visitar os pais dela, perto da saída da cidade de Havana pela avenida Boyeros. Têm uma pequena chácara que nem de longe se pode comparar com a que possuíam perto dali antes que a revolução a expropriasse nos anos 70 para construir um depósito de lixo. O Estado lhes ofereceu uma casa melhor, mas com menos terreno. Antes da expropriação, o senhor Garcés criava dezenas de vacas leiteiras; agora só tem uma, que, depois da cota de leite que tem de vender ao Estado por menos de 2 pesos cubanos o litro (R$ 0,15), mal sobra para o desjejum da família. Se lhe roubassem a vaca, o pai de Celia teria de pagar uma multa de 500 pesos (mais de um salário médio).

Para completar suas magras receitas e a pensão assistencial que sua mulher recebe (134 pesos cubanos), Garcés pai costuma comprar cocos por 1 peso cubano para vendê-los a 2 pesos depois de descascá-las a facão: um trabalho difícil, perigoso e mal pago.

A vida cotidiana de Celia, Felipe, Roberto e dos avós Garcés não é especialmente diferente nem mais dura que a da maioria dos cubanos; pode parecer um compêndio das situações e problemas que vivem diariamente milhões de pessoas, e talvez seja, mas não é mais que uma história real de Cuba, como tantas outras. A dura vida de Celia e Felipe: história de uma família de Havana e seus problemas cotidianos, comuns à maioria dos cubanos. Ele é um cidadão leal à revolução, ela trabalha como empregada doméstica Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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