Secular produção de vinho libanês sobrevive às guerras e à violência

Tomás Alcoverro
Em Beirute

Algumas dessas caves de paredes de terra úmida, empapadas do cheiro de vinho, remontam à época romana. Por acaso foram descobertas quando os moradores, perseguindo uma raposa que rondava seus currais, se escondeu em uma antiga galeria escavada nessa terra fértil e ensolarada da planície do Beqaa. Os jesuítas em 1857 começaram a plantar vinhedos e construíram novos trechos de túneis para guardar o vinho do Chateau Ksara, o mais famoso do Líbano.

Essa cultura vinícola remonta à época dos fenícios, a 4 mil anos. Entre as ruínas romanas, não longe destas vinhas bem cuidadas, destaca-se o templo dedicado ao deus Baco.

Quando terminou o mandato francês no Líbano, se supôs que acabaria a produção do vinho local, devido aos costumes religiosos da maioria muçulmana xiita da população do Beqaa. Mas os jesuítas continuaram plantando cepas de muscat, de cabernet sauvignon, ampliando os hectares da superfície de cultivo. Em 1973 a ordem de Santo Inácio vendeu essa propriedade a um grupo de homens de negócios libaneses que a consolidaram e ampliaram.

Em outras paragens, ao norte de Beirute, o mosteiro católico armênio de Bzumar produz seu próprio vinho desde o século 18, assim como outros conventos maronitas desde datas mais recentes, em uma tradição monástica muito arraigada. Nas caves de Ksara, 2 km de largura, repousam os crus em tonéis de madeira feitos em Bordeaux, e em milhares de garrafas encerradas atrás de grades.

Em um país tão pequeno quanto o Líbano, de 4 milhões de habitantes, vendem-se por ano 7 milhões de garrafas, a metade destinada à exportação para países como França, EUA e Canadá. Há outras marcas, como Kefraya, Musar, Domaine de Tourelles, Clos de Saint Thomas. O famoso dirigente druso Ualid Yumblat adquiriu durante os anos das guerras a maioria das ações da Kefraya.

Esse político turbulento e sempre surpreendente parece muito satisfeito com seu negócio particular. Nem as guerras nem a violência nem a exacerbação de certos costumes islâmicos frearam a produção vinícola, embora haja localidades e estabelecimentos públicos no Líbano onde não se consomem bebidas alcoólicas, especialmente nas regiões xiitas do sul.

A colheita deste ano na bela planície do Beqaa foi esplêndida. Essa terra mediterrânea goza de 320 dias de sol por ano. Com métodos modernos, efetua-se tanto a vindima como a elaboração do vinho e do arak, essa espécie de anis local muito popular.

Muitos vindimadores são beduínos, curdos ou vêm da vizinha Síria. Embora algumas dessas marcas tenham ganhado prestigiosos prêmios internacionais, os vinhos libaneses ainda não têm a reputação que merecem. Como me disse um grande especialista de Beirute, com ironia: "O mundo não sabe que esta não é só a terra bíblica de leite e mel, mas também a terra do vinho de boa qualidade". Quando terminou o mandato francês no Líbano se supôs que acabaria a produção do vinho local, devido à maioria muçulmana no país, mas ordens religiosas -os jesuítas começaram em 1857- e empresários locais continuaram essa tradição Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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