Era Putin cria a geração dos US$ 500

Gonzalo Aragonés
Em Moscou

Os arranha-céus de apartamentos da nova city de Moscou, que são vendidos por milhões de euros, são o símbolo da Rússia mais moderna, que foi feita nos últimos anos da era Putin. O idoso que, à sombra do descomunal edifício, recolhe garrafas de vidro para revendê-las e sobreviver é a realidade escondida pelos anos mais prósperos desde o fim do comunismo. Comparando a situação atual com a dos anos 1990, é difícil encontrar alguém em Moscou que não possa afirmar que hoje vive melhor. Especialmente se esse alguém for jovem. "A capital russa se tornou muito dinâmica. É impossível não encontrar trabalho", afirma Irina, uma engenheira.

Ela faz parte da nova geração de russos chamada às vezes de geração Putin, que dificilmente tem outra época para comparar que não seja a do presidente Ieltsin. Os anos do comunismo são história para eles. Hoje os altos níveis de vida estão acima de questões como democracia ou liberdade de expressão. Há oportunidades. Eles são a pequena classe média que desde 2004 cresceu graças a uma boa situação econômica e aos altos preços do petróleo. "Ao observar elementos como a venda de telefones celulares ou os preços das residências, percebemos que a classe média está crescendo em todo o país", indica Sergei Guriyev, reitor da Nova Escola de Economia. Esse é um elemento de otimismo.

Outro elemento são as estatísticas oficiais. O fim da crise econômica coincidiu com a chegada de Putin ao Kremlin. Em 1999 ele foi nomeado primeiro-ministro e em 31 de dezembro desse ano Boris Ieltsin renunciou e deixou o poder em suas mãos. Desde então o PIB foi aumentando e a partir de 2003 acelerou e hoje é o mais alto da história russa. A isto se soma o aumento dos salários. Segundo a agência de estatísticas Rosstat, o salário médio no ano passado foi de 13.067 rublos. É a primeira vez que se superam os US$ 500 (exatamente US$ 533, ou 363 euros). Em 2000, quando Putin foi eleito pela primeira vez presidente da Rússia, o salário médio rondava os US$ 70.

Essa é a situação que ele deixará em 2 de março para seu colaborador Dimitri Medvedev, que seguramente ganhará as eleições. As pesquisas lhe dão 70% das intenções de voto, contra seus três concorrentes: o líder comunista Gennadi Ziuganov, o extravagante Vladimir Jirinovsky e o semidesconhecido Andrei Bogdanov.

O próprio Putin disse que sua principal conquista foi ter dado estabilidade ao país. Mas isso também trouxe desigualdades entre os mais ricos e os esquecidos. Saúde, educação e aposentadorias, principalmente, são os grandes déficits da era Putin. Os aposentados, que ganham em média pouco mais de 90 euros por mês, foram protagonistas em 2005 dos protestos mais ruidosos pela reforma do sistema.

Quiseram atacar as diferenças sociais sem os pés no chão, dizem os críticos. As diferenças entre pobres e ricos e o acesso à medicina ou à educação, onde muitas vezes é preciso pagar para receber um tratamento ou para aprovar disciplinas, são os cânceres da Rússia de hoje que Putin não conseguiu extirpar. "Quanto mais dinheiro houve no país, pior foi nossa qualidade de vida. A economia não funcionou para o povo", critica o deputado comunista Oleg Smolin. Como se fosse pouco, a inflação, de 12% no ano passado, põe em questão a economia.

As diferenças sociais também se manifestam entre regiões. Há alguns dias a imprensa local anunciou que os salários dos professores em Moscou poderiam chegar a US$ 2 mil mensais este ano, coisa impensável quando há seis anos não superavam os US$ 100. Mas é que esse é hoje o salário de um professor ou um médico em algumas províncias.

Putin implantou há três anos os projetos nacionais para reformar a saúde, habitação, educação e agricultura. E confiou sua direção a Medvedev. Mas as mudanças demoram. Durante esta campanha eleitoral, o poder lançou a idéia de que o plano de Putin será completado em 2020. O desenvolvimento econômico da era Putin permitiu o nascimento de uma pequena classe média. O novo presidente da Rússia terá de enfrentar as desigualdades sociais e a inflação Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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