Vaticano ouve mensagens católicas no rock de Bruce Springsteen

María-Paz López
Em Roma

Bruce Springsteen, o "Boss" do rock mundial, o poeta da alma americana, é alvo de muitos elogios musicais, mas que seja louvado pelo "Osservatore Romano", o jornal do Vaticano, devido à "matriz católica" de suas canções, é no mínimo uma novidade para o leigo. Em sua edição de domingo (2), o jornal do papa dedica diversos elogios ao roqueiro, pela "matriz católica que permeia toda a produção do cantor e compositor". Ao mesmo tempo lembra que Springsteen, de 58 anos, "filho de um irlandês e de uma italiana, estava de algum modo destinado a ser católico"; e que "além da educação familiar, um dos fatores que mais influíram nele foi ler os relatos da escritora católica Flannery O'Connor".

"L'Osservatore Romano", que não costuma elogiar personalidades do mundo do espetáculo, utiliza essas considerações ao calor do ensaio "Come un killer sotto il sole - Il grande romanzo americano" (Como um assassino sob o sol - O grande romance americano), do escritor italiano Leonardo Colombati, que afirma que a obra de Springsteen é de fato literatura pura.

AFP - 17.mai.2003
Bruce Springsteen escreve canções que sugerem imagens típicas do catolicismo
Bruce Springsteen (nascido em Freehold, Nova Jersey, em 1949) rebelou-se na juventude contra a educação católica que recebeu, depois se divorciou e voltou a se casar e está longe de se declarar crente, mas em suas letras podem ser encontrados símbolos religiosos. Em 2002, ano da publicação de The Rising -disco dedicado ao 11 de Setembro-, o jesuíta italiano Antonio Spadaro os compilou meticulosamente em "La Civiltá Cattolica", prestigiosa revista bimensal da Companhia de Jesus, cujas provas são enviadas à Secretaria de Estado do Vaticano para receber o "publique-se".

Alguns exemplos assinalados por Spadaro: já no disco Born to Run (1975) Springsteen empregava vocábulos como fé, redenção e terra prometida; e o próprio título de The Rising evoca a idéia de ressurreição. Mais exemplos: a canção Spare Parts, do álbum Tunnel of Love (1987), em que uma mãe solteira deixa seu filho no rio, parece moldada sobre o relato bíblico de Moisés, confiado ao rio quando era bebê; e o tema My Father's House, do álbum Nebraska (1982), evoca a parábola do filho pródigo, só que o pai mudou de casa e o filho a encontra "fria e solitária".

Na realidade, intelectuais e teólogos cristãos, tanto católicos quanto protestantes, analisaram a face espiritual do Boss, mas suas reflexões discorreram em âmbito crente. O "Osservatore Romano" lembra a respeito a capa que o semanário "America", dos jesuítas americanos, dedicou a Springsteen em 1988. Um ano antes havia saído Tunnel of Love, e inclusive a revista "Rolling Stone" havia escrito que nesse disco "pode-se perceber a educação católica recebida por Springsteen; os protagonistas rezam para ser libertados do mal e as histórias de amor são representadas como uma manifestação da graça divina".

Aquela capa de "America" deu frutos curiosos: ao vê-la, o romancista católico Walker Percy escreveu em 1989 para Springsteen perguntando-lhe se era católico e proclamando-se também admirador de Flannery O'Connor, mas morreu antes de receber a resposta. O músico escreveu então uma carta à viúva, na qual confessou: "A perda e a busca de fé e significado estiveram no núcleo do meu trabalho durante a maior parte da minha vida adulta". Isso explica muitos de seus versos. O Vaticano e os jesuítas elogiam "a matriz católica" das canções de Springsteen. A parábola do filho pródigo e o relato bíblico de Moisés marcam alguns temas do compositor e cantor Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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