O astrólogo que combateu Hitler

Rafael Ramos
Em Londres

Um aristocrata alemão de pouca importância, amante de charutos cubanos, filho de um nobre com fama de charlatão e de disfarçar-se de mulher, foi a arma secreta dos serviços de inteligência britânicos na hora de derrotar Hitler, e sua missão foi interpretar o horóscopo e os mapas astrais para se antecipar às decisões do ditador nazista e adivinhar sua estratégia.

Adolf Hitler dizia em voz alta que guiar-se pelo conselho dos astros era "uma estupidez própria de mentes infantis", mas na prática contava com os serviços de um astrólogo oficial, Karl Ernest Kraft, e os historiadores crêem que cronometrou o início de algumas de suas campanhas para que os planetas estivessem convenientemente alinhados. Ou seja, era daqueles que não acreditam em bruxas, mas que elas existem, existem.

A Executiva de Operações Especiais britânica (SOE), unidade criada por Winston Churchill durante a guerra para ajudar a resistência nos países ocupados e cometer atos de sabotagem, se desviou de sua estratégia ao contratar o astrólogo berlinense Louis de Wohl -cujo verdadeiro nome era Ludwig von Wohl e se dedicava a fazer os horóscopos da alta sociedade londrina- para que combatesse o líder do nacional-socialismo através das estrelas. Mas nunca ficou claro se a prática contribuiu para a vitória aliada ou resultou em farsa.

As agências governamentais e de espionagem do Reino Unido encarregadas de combater o nazismo tinham entre si os mesmos ciúmes que a CIA e o FBI enfrentam hoje nos EUA. Por isso a decisão de contratar o astrólogo foi recebida com desconfiança no serviço de inteligência britânico. O MI5, segundo documentos secretos revelados esta semana, considerou a fé no astrólogo uma "idiotice suprema" e tentou minar a imagem do aristocrata de origem húngara como "um homem afeminado de vaidade desmesurada, um propagandista nato cuja afeição pelos uniformes nazistas só é superada pelo gosto a se vestir de mulher".

Mas De Wohl rebateu essas opiniões com um círculo de fãs entre os quais estava o almirante John Godfrey, diretor da inteligência naval, ao qual convenceu da importância de adivinhar -em função do horóscopo- se o Führer estava otimista ou pessimista ao empreender determinada ofensiva.

De Wohl chegou a ser enviado aos EUA para incentivar a entrada de Washington na guerra prevendo uma invasão da América Latina. O astrólogo dizia ter lido nas estrelas que a Itália se aliaria à Alemanha, a data da ofensiva para invadir a Grã-Bretanha e o desenlace da batalha de Al Alamein. Os céticos alegam que não passava de um fantasma. Mas como Ronald Reagan não tomava nenhuma decisão sem consultar os astros e Cherie Blair instalou sua própria guru espiritual em Downing Street, quem pode acusar Churchill de buscar uma ajuda extra para derrotar Hitler? Uma unidade criada por Churchill contratou um astrólogo para minar a confiança que o Führer tinha nas previsões de seu adivinho oficial Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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