Caçador solitário busca revelar os segredos da CIA

Ima Sanches

Sou Trevor Paglen, tenho 33 anos. Nasci em Washington D.C. e vivo em Berkeley (Califórnia). Moro sozinho. Sou doutor em Geografia. Hoje novas formas de violência ilegítima estão sendo praticadas mundialmente por parte dos governos, há um crescimento espetacular do poder e dos agentes da CIA. Não tenho nenhuma crença.

A entrevista:

La Vanguardia - Seu hobby é muito estranho.
Paglen -
Eu investigo, escrevo e faço obras de arte sobre segredos, e a CIA está cheia deles. Há alguns anos estudei as prisões norte-americanas e usei imagens de satélite do governo. Em algumas das imagens, não havia foto, eram centros secretos de treinamento militar. Foi assim que comecei a me interessar por esses vazios nos mapas.

La Vanguardia - E então se tornou um especialista em instalações militares clandestinas.
Paglen -
Sim, juntamente com A. C. Thompson, jornalista do San Francisco Weekly, escrevi "Os táxis da tortura", onde revelamos pela primeira vez a rede de vôos e aeroportos que a agência usa para levar suspeitos a prisões secretas em todo o mundo.

La Vanguardia - Há quem ainda acredite que isso é uma lenda urbana.
Paglen -
O presidente Bush e o diretor da CIA admitiram a existência do programa "rendição extraordinária". Documentamos prisões secretas na Romênia, Polônia, Tailândia, Guantánamo, Egito, Síria, Marrocos e em vários pontos da África, para onde os suspeitos seqüestrados são levados e onde são torturados. Nos últimos seis anos, a CIA seqüestrou umas cem pessoas.

La Vanguardia - Vocês entrevistaram os seqüestrados?
Paglen -
Sim. Mohamed Binyam, que atualmente está em Guantánamo, nos contou que lhe fizeram cortes no pênis durante seis meses, depois o levaram a uma prisão no Afeganistão onde o mantiveram no escuro e preso pelos punhos. Faziam com que ele ouvisse músicas de Eminem no máximo e sons fantasmagóricos.

La Vanguardia - Mas as declarações sob tortura não são válidas em um julgamento.
Paglen -
Uma das leis aprovadas nos Estados Unidos recentemente permite que os tribunais militares utilizem provas resultantes de tortura. Depois de fazerem com que as pessoas desapareçam, alguns por mais de seis anos, como é que eles podem inseri-las no sistema legal? Esses métodos informais de justiça, à margem da lei, estão mudando a estrutura do Estado.

Paglen usa sua visão de águia própria de um geógrafo para desmascarar práticas anômalas por parte de autoridades ou programas militares secretos e depois as converte em exposições e livros. No livro "Os táxis da tortura", revelou a rede de vôos e aeroportos que a CIA usa para levar suspeitos de terrorismo a prisões secretas por todo o mundo, sob o programa batizado de "rendição extraordinária". Seu segundo livro, "I could tell you but then you would have to be destroyed by me" (algo como "Eu poderia lhe contar, mas depois teria de destruí-lo"), examina a cultura visual dos programas secretos do Pentágono.
ARTE DE CHOQUE
La Vanguardia - Como você teve acesso a toda essa informação?
Paglen -
Investigando os planos de vôo dos aviões. A CIA não é uma agência militar, mas sim civil, que cria empresas falsas para levar a cabo seus programas secretos. Seu problema é que tem de arquivar todos os papéis legais como se fosse uma empresa de verdade. Basta saber quais são as empresas em questão, uma vez que seus arquivos são públicos.

La Vanguardia - E a indústria de aviação é bastante regulada.
Paglen -
... Assim temos acesso livre a um monte de papéis: registro dos vôos, de manutenção, etc.

La Vanguardia - Com os democratas, essa situação mudaria?
Paglen -
Há continuidade entre uma administração e outra. Na realidade, esse programa começou com Clinton e, uma vez que é parte do Estado, é muito difícil detê-lo.

La Vanguardia - Você conseguiu fotografar a prisão de Salt Pit no Afeganistão. Como fez isso?
Paglen -
Foi lá que foi parar o cidadão alemão Khalid el Masri, um dos primeiros casos de tortura a se tornar público. Um homem que havia estado ali nos contou que depois de aterrissar colocaram-no em um caminhão que levou uns dez minutos para chegar ao cárcere. Pelos registros dos vôos descobrimos que havia aterrissado em Cabul.

La Vanguardia - Então vocês fizeram uma varredura na área?
Paglen -
Sim, localizamos uma fábrica de ladrilhos isolada, a nordeste do aeroporto. No caminho, vimos um pastor tradicional usando um boné de beisebol com as siglas KBL, que pertencem à companhia Kaluga Brown and Roto, uma subsidiária da Halliburton, de Dick Cheney, construtora das prisões de Guantánamo e de Bag Bran, esta nos arredores de Cabul.

La Vanguardia - Você consegue viver tranqüilamente com tantos segredos?
Paglen -
Não me ameaçaram oficialmente, apesar de existir muita gente bastante incomodada comigo. Mas não se esqueça de que sou um homem branco da Califórnia, e isso ajuda muito.

La Vanguardia - Sim, mas nos filmes, a CIA não tem tantos pontos fracos.
Paglen -
Na realidade, se ela tem esses pontos fracos, há razões teóricas que têm a ver com a geografia; o mundo está cheio de coisas que são muito difíceis de se esconder. Quanto se tenta esconder algo, sempre surgem contradições, basta procurá-las.

La Vanguardia - Você também investigou a cultura visual dos programas secretos do Pentágono.
Paglen -
Os distintivos e emblemas dos uniformes militares de unidades secretas, as chamadas unidades negras, simbolizam um autêntico submundo de projetos confidenciais com nomes delirantes. Veja esse, por exemplo, que trata de um avião secreto. Eloise De Vylder

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