Cada vez mais cidadãos aderem à caminhada para fugir do ritmo urbano

Rosa M. Bosch
Em Barcelona

Daniel Garcia/AFP 

Praticar o "trekking", ou caminhada, para mergulhar em culturas longínquas ou simplesmente desconectar-se de uma vida urbana demais, se transformou no tipo de férias e escapada preferido de um número cada vez maior de cidadãos. Mais de 15 milhões de europeus saem habitualmente para longas caminhadas nos fins de semana, segundo dados da European Ramblers' Association citados por seu vice-presidente, Juan Mari Feliu. Nos últimos anos foram criadas dezenas de empresas dedicadas a organizar excursões de fim de semana; as agências de viagens viram disparar a demanda por férias ligadas ao trekking; proliferaram sites na Web especializados em caminhadas, com milhares de visitas diárias, e se multiplicou o número de associados aos clubes de excursionismo.

Uma necessidade urbana. As caminhadas correspondem ao desejo da sociedade de descobrir o território de maneira pausada. "Antes, no mundo rural, não sentiam a necessidade vital da natureza, mas hoje temos uma forma de vida sedentária, estamos cercados de concreto e as pessoas precisam da paisagem, percorrê-la com todos os sentidos...", reflete Eduardo Martínez de Pisón, catedrático de geografia na Universidade Autônoma de Madri.

Os especialistas acreditam que o trekking não pode ser entendido fora das sociedades urbanas. "As pessoas do campo não sentiam a necessidade de sair andando; é da cidade e da cultura que nasce a prática das caminhadas. O fato de poder decidir ir a pé é algo quase aristocrático, no sentido de que o tempo é um privilégio. Renuncia-se a ver muitas coisas para vê-las mais intensamente; é uma opção relacionada com a rejeição da banalidade. As pessoas fazem muitas coisas, mas são poucas as que as preenchem", considera Rafael López-Monné, geógrafo, estudioso do trekking e diretor editorial da coleção de guias De Ferradura (Arola).

Questão de equilíbrio. Na opinião dos estudiosos do fenômeno, andar supera a dimensão do mero entretenimento; trata-se de praticar atividades que nos ajudam a compensar os desequilíbrios provocados pelos estilos de vida atuais. "Diante dos ritmos tão acelerados que praticamos, procuramos uma atividade de contraste, que nos permita entrar lentamente em contato com a natureza e o patrimônio. Além disso, exige um esforço físico que pode ser modulado de acordo com as capacidades de cada pessoa", acrescenta López-Monné.

"Sabíamos que o sucesso do trekking na Europa chegaria à Espanha. Ficou na moda porque é um lazer muito criativo, acessível aos diversos bolsos e com muitos benefícios para a saúde. Você vai ao médico e ele diz: pare de fumar e de beber álcool e caminhe. Podemos andar sem limite de idade, enquanto em outros esportes é preciso se aposentar com certa idade", opina Antonio Durmo, coordenador de caminhadas da Federação Espanhola de Esportes de Montanha e Escalada (Fedme). A federação indica que em cinco anos o número de licenças federativas aumentou cerca de 30%, passando de 55.127 para cerca de 76.500. mas esse último número não exemplifica a dimensão do fenômeno, pois a maioria das pessoas que sai para caminhar não é afiliada a nenhum clube, apenas vai livremente.

Mais quilômetros de caminhos. Outros indicadores que corroboram esse boom são o aumento de empresas de guias e de produtos para trekking; a participação de prefeituras e outras administrações na recuperação de trilhas e na promoção turística dessa atividade; o aumento das férias voltadas para caminhadas ou as visitas aos parques nacionais espanhóis, que em cinco anos aumentaram em um milhão de pessoas, situando-se em cerca de 11 milhões em 2006. O número de quilômetros de trilhas sinalizadas e homologadas pela Fedme -percurso longo ou curto ou trilha local- aumentou, passando de 37.192 em 2003 para os atuais 49.022, aos quais se devem somar cerca de 10 mil quilômetros que estão em projeto. O último percurso longo que foi habilitado é o que acompanha o curso do rio Ebro.

Poder de convocação. Outros dados que confirmam essa tendência é o número de inscritos em caminhadas populares ou o dos peregrinos que percorrem grandes rotas como o caminho de Santiago de Compostela. Uma das travessias míticas, a de Matagalls-Montserrat, de 83,3 km com 6 de desnível, vê a participação aumentar a cada ano; na última edição foram cerca de 3 mil inscritos, contra 1.800 em 2001, indica Francesc Sanahuja, presidente do Clube Excursionista de Grácia, a entidade organizadora. O caminho de Santiago é outro barômetro: em dez anos o número de peregrinos que receberam a Compostelana -os que completam no mínimo 100 quilômetros a pé ou 200 de bicicleta- passou de 17.934 para 93.953.

Para Enrique González, responsável pela área de trekking do Taranná Club de Viatges, a atração pelas caminhadas não corresponde apenas ao desejo de desfrutar do ar livre e romper o cotidiano da cidade, mas também "à necessidade de sociabilizar-se", de conhecer gente. Ele cita o exemplo da proliferação de agências em Madri que se especializaram em vender uma espécie de trekking light, isto é, excursões de baixa intensidade combinadas com uma forte oferta cultural.

Em relação ao âmbito das viagens, o Taranná multiplicou "no mínimo por cinco as vendas de pacotes de trekking". Deve-se explicar que a palavra "trekking" é associada a caminhadas mais longas, em altitude e em lugares menos acessíveis. "Tenho a sensação de que as pessoas buscam outras formas de lazer, e as férias de praia talvez já não satisfaçam tanto; as caminhadas levam a lugares fantásticos onde não se pode chegar de outra maneira que não seja andando." A Taranná, como tantas outras agências, inclui em seus programas de trekking destinos míticos como as montanhas Semien da Etiópia, as Ruwenzori de Uganda, a cordilheira Branca do Peru, a cordilheira Real da Bolívia ou os vales Zanskar e Markha do Himalaia. "Dos 140 programas que temos em nosso catálogo, cerca de 30 são de trekking. As pessoas querem mais atividades e já não basta levá-las para ver o Taj Mahal", indica Mariano Sanz, da Viajes Años Luz.

Estourar a bolha. Mas as saídas para a montanha em grupos numerosos despertam críticas. "Defendo as caminhadas de maneira individual, que as pessoas tomem a iniciativa, recorram a sua engenhosidade, comprem um mapa, aprendam a se orientar... Quando se vai em grupo sempre há barulho, se você vai sozinho ou com pouca gente entra diretamente no cenário e tem um benefício espiritual", considera Eduardo Martínez de Pisón, para quem o interesse pela natureza deve ser acompanhado de um trabalho pedagógico para evitar impactos ambientais. "A natureza é um bem que é preciso saber administrar, não é um objeto de consumo", acrescenta, reivindicando a aculturação dessa disciplina para que não se limite a uma simples atividade esportiva. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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