O dinheiro ilícito: a situação na Rússia

Pedro Vallín
Em Madri

Dá as costas para uma janela que vai do piso ao teto. O erro foi perguntar a Misha Glenny se ele tem medo. Quem teme por sua vida não dá as costas para a janela de um andar baixo. Qualquer um diria que esse jornalista britânico tem seus motivos. Acaba de lançar "McMafia, o Crime sem Fronteiras" (edição espanhola pela ed. Destino), uma revisão terrível do crime organizado global, que começa com a queda da União Soviética e a decomposição da Iugoslávia e repassa o funcionamento e a trajetória das principais organizações mafiosas do planeta. Glenny é afável, mas leva muito a sério o que diz e fala com gravidade para dissipar ambigüidades morais: conviveu com muitos gângsteres e alguns deles lhe pareceram francamente simpáticos.

É surpreendente como as máfias aparecem na Rússia e na Europa do Leste para suprir um Estado que desmoronou.

O vazio deixado por esses Estados ao despencar é enorme, pois eram administrações que ocupavam todas as esferas da vida das pessoas, especialmente no caso da URSS. Ao abrir-se o modelo para uma economia liberal, os agentes econômicos, os empresários, precisam que haja um controle dos acordos, garantias de que os contratos serão aplicados, mas o Estado desapareceu e não pode zelar pela lei. De modo que essas máfias aparecem como proteção para os empresários.

Leia abaixo a entrevista com o autor.

La Vanguardia - "Parteira do capitalismo", como o senhor a chama no livro.
Misha Glenny -
Sim, nada teria se movido na economia russa sem a atuação das máfias. E quando digo "proteção" é exatamente isso. Não foi um caso de extorsão contra empresários, mas os próprios proprietários das empresas procuraram os gângsteres para que cuidassem do funcionamento da economia.

LV - É considerado algo necessário pelos cidadãos?
Glenny -
Bem, na Rússia a maior parte da atividade foi reassumida pelo Estado com Putin. O grande urso despertou e percebeu que estavam comendo seu mel, e Putin se dedicou a restaurar a autoridade do Estado e o fez como se faz na Rússia: sendo mau. Leve em conta que a Rússia sempre foi um lugar muito seguro. Inclusive durante os seis anos da guerra dos bandos mafiosos dos anos 90, nos quais houve muitos assassinatos, as vítimas eram membros das organizações e a sensação de insegurança não foi transmitida para o resto dos cidadãos. Não é a mesma coisa que em outros países com grande atividade do crime organizado como a África do Sul ou o Brasil. O caso da Sérvia é mais complicado, mas se eu fosse mulher passearia mais tranqüila à noite pelas ruas de Belgrado do que pelas de Londres.

LV - A utopia anarquista morreu: o Estado ou a máfia.
Glenny -
(Risos) Bem, não sei se eu diria tanto, mas no caso do bloco soviético posso assegurar que não haveria transição para o capitalismo sem o crime organizado.

LV - É chocante a visão sinistra que se tem de Putin na Europa diante do retrato que o senhor faz.
Glenny -
Bem, Putin só poderia chegar dez anos depois da transição russa. É preciso considerar que para dezenas de milhões de cidadãos russos a década de 1990 foi um autêntico pesadelo; basta dizer que a esperança de vida diminuiu para 58 anos. Tudo desmoronou, os bancos, a segurança. Putin se propôs construir a partir dessa decepção e recuperar a autoridade para o governo, mas não se livrou das máfias, e sim as colocou sob o teto, sob a tutela do Estado.

LV - Na Europa Ocidental é simplesmente um homem que fecha o registro do gás.
Glenny -
Creio que a Rússia está entrando em uma terceira fase na qual Putin e Medvedev se propuseram limpar o setor energético de seu país tanto de máfias como da influência estrangeira. Putin sabe que não pode competir com os EUA em uma corrida armamentista, mas sim de energia. As pessoas dizem na Europa Ocidental que é pouco democrático, mas mantemos o comércio energético com a Arábia Saudita, que não pode ser considerada um paradigma de sociedade democrática. Não devemos pensar que a Rússia com o gás e o petróleo vá provocar uma disputa com a UE. Elas são obrigadas a coexistir. Vai ser ruim para a Ucrânia e a Geórgia, que estão no meio. "Sem a ajuda do crime organizado não haveria transição russa para o capitalismo", afirma Misha Glenny, autor de "McMafia, o Crime sem Fronteiras"

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