O último contador de histórias de Damasco

Tomás Alcoverro
Enviado especial a Damasco

"Venha depois da oração do magrib se quiser escutar o hakauati", me dizem. O café junto às escadas da ruela Al Nafura, sob o minarete de Yahia da grande mesquita dos Omeyas, e perto da porta do bazar Al Arqadiya, está cheio de fregueses sentados nas cadeiras de vime de seu pequeno e animado terraço. Saboreando xícaras de chá, fumando com indolência o narguilé, se distraem com o vaivém de transeuntes árabes e turistas estrangeiros que sobem e descem as escadas dessa rua de casas vetustas e alegres terraços.

Pouco depois que os almuadens das mesquitas, em uníssono, entoam a chamada para a pregação do magrib, na hora do crepúsculo, chega o hakauati, ou narrador de histórias tradicionais. Chama-se Rashid el Qalaq, Abu Shadi, tem 60 anos e se apresenta como o último hakauati de Damasco.

No interior do café há um pequeno estrado com uma cadeira incrustada de nácar e um tripé de latão. O narrador veste calças pretas largas, presas com uma faixa cinza, e o fez vermelho, ou tarbusch, boné do tempo dos otomanos. Ao subir ao estrado, abre um livro de capas pesadas e começa a ler. Entre os clientes há funcionários públicos, estudantes, um público aficionado e turistas curiosos. No café abobadado, com quadros de paisagens e uma fotografia da grande cantora egípcia Um Kalsum, vê-se um televisor apagado. Em Beirute não há mais contadores de histórias como os que durante décadas fizeram a delicia de públicos populares. No bairro muçulmano de Basta, em Beirute, ainda assisti no final dos anos 70 a algumas de suas atuações.

Abu Shadi lê lentamente, seja uma história do tempo dos mamelucos, seja atual; quase sempre são relatos de intrigas e penas amorosas ou aventuras apaixonadas. Às vezes bate com uma velha espada na mesinha de latão para provocar um efeito teatral ou chamar a atenção dos ouvintes. De vez em quando dramatiza, modulando as diversas vozes dos personagens, proferindo exclamações, elevando as mãos para o teto do café cheio de fumaça.

Às vezes interrompe a leitura se os ouvintes falam em voz alta ou se dedicam a intermináveis diálogos pelos celulares, tão comuns na Síria. Os garçons vão e vêm servindo pequenas xícaras de chá ou refrescos, e um engraxate descalça os clientes para dar brilho a seus sapatos na rua.

A clientela escuta, às vezes ri, aplaude um trecho quando identifica algum personagem da narrativa, permanece em silêncio na medida em que se aproxima o desenlace. O hakauati manipula habilmente o relato, e com freqüência deixa em suspenso o final da história até o capítulo seguinte.

Os hakauatis se esforçavam para contar histórias cada vez mais apaixonantes, e, se muitas vezes eram superficiais ou teatrais, sabiam como começá-las, interrompê-las ou concluí-las. A televisão não conseguiu acabar completamente com essa tradição.

Mas por quanto tempo ainda haverá hakauatis? Ao terminar a leitura, Abu Shadi desce do estrado e, deixando os velhos livros e a espada sobre a cadeira, tira o fez. Um garçom passou uma bandeja em que os clientes deixaram suas gorjetas. "Os hakauatis estão acabando porque ganham muito pouco", ele diz. "Não pense que este dinheiro arrecadado é todo para mim." A presença de Abu Shadi se impõe em um estrado no café Al Nafura, perto da grande mesquita dos Omeyas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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