Eleições na Itália: as esquecidas da campanha

María-Paz López
Em Roma

Quando a brilhante advogada Giulia Bongiorno, que levou a Justiça a eximir Giulio Andreotti do suposto delito de conluio com a máfia, lhe perguntou por que havia tão poucas mulheres na política italiana, o líder democrata-cristão octogenário a olhou estupefato e respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia: "Porque têm de amamentar seus bebês".

Na Itália, a pequena presença feminina nas instituições é notória e obedece em parte ao esquema cultural citado por Andreotti, que insiste em confinar as mulheres ao âmbito doméstico segundo o modelo da "mamma", ou a mostrá-las na esfera pública só pelo físico, como na triunfante figura da "velina" (dançarinas) da televisão, leve de roupa e de inteligência.

Na política também há razões estruturais. Os partidos raramente colocam mulheres em postos chaves porque na política italiana há muitos partidos e suas cúpulas dirigentes estão repletas de homens de uma certa idade, que acabam distribuindo os cargos com mais probabilidade de lugares nas chapas eleitorais. As vítimas não são só as mulheres, mas também os jovens; um estudo da Universidade Católica de Milão prevê que a idade média dos candidatos que ficarão sem assentos nestas eleições é de 42 anos.

Walter Veltroni, candidato a primeiro-ministro pelo Partido Democrata, teve gestos em relação a isso, ao apresentar como cabeça de chapa para a região do Lácio uma economista de 27 anos, Marianna Madia. Também enviou a muito respeitada Anna Finocchiaro para travar um combate desigual com a centro-direita nas eleições regionais da Sicília.

"O Partido Democrata duplicou o número de mulheres em suas listas, e em postos bastante seguros, que representarão entre 17% e 34% das parlamentares", afirma Teresa Armato, candidata democrata ao Senado por Nápoles. De fato, nesta convocação há mais candidatas em todos os partidos do que em outras vezes (estima-se que se aproximem de 25% do total), mas na campanha eleitoral ficaram escondidas. As eleitoras engajadas desejam ver no debate políticas como Emma Bonino e Rosy Bindi (centro-esquerda) ou Stefania Prestigiacomo (centro-direita).

A verdadeira campanha foi dada pela Direita, que talvez por ser um partido novo - embora de ideologia velha, é uma cisão pós-fascista da Aliança Nacional -, se permitiu apresentar pela primeira vez na história uma candidata a primeira-ministra, Daniela Santanchè. Mas esta deputada de 47 anos não causa entusiasmo no eleitorado feminino. Pertencente à boa sociedade milanesa, primeira mulher relatora dos orçamentos gerais do Estado, Santanchè sente nostalgia do fascismo e lamenta que se fale sempre de seu guarda-roupa.

"Faltam mulheres em cargos de tomada de decisões"
A escassez de mulheres na política italiana não significa automaticamente ausência feminina do mundo profissional, embora nos dois âmbitos "faltem mulheres em cargos de poder e de tomada de decisões", lamenta Stefania Giannini, reitora da Universidade para Estrangeiros de Perugia. Giannini - casada e mãe de dois filhos - atribui o fato a "uma cultura ainda muito radicada na sociedade italiana, conservadora e estática, na qual o papel da mulher ainda está muito ligado de modo exclusivo à família, a ser esposa e mãe".

Segundo a reitora, é fundamental que o Estado apóie as italianas para que possam ter acesso a ambas as facetas, sem ter de renunciar à família pela profissão ou à profissão pela família, um dilema que os homens raramente têm de enfrentar. "Os governos não mudam modelos culturais porque são processos longos na sociedade, na família, na educação e no trabalho, e é aí que se dirime a autonomia real da mulher", constata. No entanto, pode-se fomentar a conciliação familiar e laboral com medidas concretas, "como mais creches, ou incentivar as empresas para que apóiem mulheres de carreira complexa, de modo que essas trabalhadoras possam financiar ajudas domésticas".

Stefania Giannini, nascida em Lucca (Toscana), formada em letras pela Universidade de Pisa e doutora em lingüística pela de Pavia, lembra que no âmbito acadêmico italiano há 42% de pesquisadoras. Os partidos perpetuam a escassez de mulheres no Parlamento e nas instituições. O Partido Democrata enviou Anna Finocchiaro para uma luta desigual nas regionais da Sicília Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos