Viagem do papa em tom de esperança

Oriol Domingo
Em Barcelona

A mensagem a favor de todos os seres humanos e de sua abertura a Deus apoiada por Joseph Ratzinger em suas sete visitas apostólicas internacionais como papa continuam vigentes. Ele viajou duas vezes à Alemanha, incluindo sua Baviera natal, à Polônia, Espanha, Turquia, Brasil e Áustria.

A viagem papal aos EUA e à ONU, a partir de terça-feira (15), é propícia para que Bento 16 ofereça "urbi et orbi" de cenários eclesiásticos e laicos, em tons de futuro e de esperança para a Igreja Católica e a humanidade. O papa visitará Washington e Nova York. O Vaticano tem relações diplomáticas com os EUA há 25 anos e está presente na ONU como "Estado observador permanente". O papa vê nos EUA e na ONU, apesar das deficiências desse país e dessa organização, elementos com os quais se podem construir o futuro da comunidade internacional.

Dos EUA, o papa destaca que é "uma nação que valoriza o papel das crenças religiosas para garantir uma ordem democrática ética e sólida". Sobre o diálogo inter-religioso e intercultural na sociedade americana, explica que "a Santa Sé está convencida do grande potencial espiritual desse diálogo, em particular para a promoção da não-violência e a rejeição das ideologias que manipulam a religião para fins políticos e justificam a violência em nome de Deus".

O papel da religião na vida pública é compatível com a separação entre Igreja e Estado, segundo o pensamento pontifício. A relação entre fé e razão no país mais avançado do mundo também pode ser objeto da atenção de Joseph Ratzinger.

Isso ficou demonstrado por Bento 16 em 27 de fevereiro passado, em seu discurso ao aceitar as credenciais de Mary Ann Glendon como nova embaixadora dos EUA no Vaticano.

Já o sociólogo Peter L. Berger, diretor do Instituto de Cultura, Religião e Assuntos Mundiais da Universidade de Boston, se referiu em recente visita universitária a Barcelona à religiosidade no mundo, especialmente na Europa e nos EUA.

Berger disse que os países da Europa ocidental são uma exceção na expansão religiosa mundial. Dos EUA, o eminente sociólogo afirmou: "Identificar modernidade com secularização e decadência da religião é um erro de categoria, porque modernidade é pluralidade, não é secularização. Os EUA são um país muito moderno e ao mesmo tempo muito religioso."

Bento 16 se deslocava da Europa laicista para a América mais religiosa. E quanto à sua presença na sede da ONU se prevê que o papa leve em conta a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que foi aprovada há exatamente 60 anos.

"O futuro da humanidade não pode depender do simples compromisso político", disse o papa em Roma. "Deve ser principalmente o fruto de um acordo geral mais profundo, baseado no reconhecimento de verdades universais, fundamentadas em uma reflexão racional sobre os postulados de nossa humanidade comum (...) A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi o resultado de um reconhecimento mundial de que uma ordem global justa só pode se basear na aceitação e na defesa da dignidade inviolável dos direitos de cada homem e cada mulher."

O papa explicou os objetivos dessa viagem em uma significativa videomensagem dirigida aos cidadãos americanos. Ele disse: "Levarei a mensagem da experiência cristã também para a grande assembléia da ONU, aos representantes dos povos do mundo. Mais que nunca o mundo tem necessidade de esperança: esperança de paz, de justiça, de liberdade. Mas não poderá realizar essa esperança sem obedecer à lei de Deus, que Cristo levou a seu cumprimento com o mandamento do amor mútuo."

O papa ressaltou esse ponto chave: "Faça aos outros o que quer que eles lhe façam, não faça o que não quer que lhe façam. Essa 'regra de ouro' se encontra na Bíblia, mas é válida para todos, inclusive para os descrentes. É a lei escrita no coração humano e nela podemos nos reencontrar todos, de modo que o encontro das diferenças seja positivo e construtivo para toda a comunidade humana."

O papa se encontrará com uma sociedade americana em campanha eleitoral. Não se reunirá com os candidatos, mas pode se referir a questões como a pobreza, o aborto, a eutanásia, a degradação ambiental, o casamento gay, a imigração... Como João Paulo 2º, Bento 16 se opôs à guerra contra o Iraque. Ele se reunirá com George W. Bush e rezará no local das Torres Gêmeas. Terá reuniões ecumênicas e inter-religiosas. Se o papa se referir aos casos de pederastia envolvendo sacerdotes, apesar de que essa questão pode ter sido manipulada, poderia pedir perdão em nome da Igreja Católica. Durante a viagem ele completará 81 anos.

Visita pastoral entre Cuba e a próxima encíclica social
A viagem do papa aos EUA se realiza um mês e meio depois de o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcísio Bertone, ter visitado Cuba. Em sua declaração final em 26 de fevereiro, Bertone explicou: "Ao início de sua nova responsabilidade [de Raúl Castro], lhe desejei sucessos nessa missão a serviço de seu país e confirmei o compromisso da Santa Sé de promover a aproximação do mundo de Cuba e compartilhar convergências sobre questões internacionais (...). Com o máximo respeito pela soberania do país e seus cidadãos, expressei a preocupação da Igreja para com os presos e seus familiares".

Bertone também anunciou que logo verá à luz a terceira encíclica de Bento 16, que será traduzida para o chinês e o árabe. Versará sobre a questão social, com especial atenção para os países em desenvolvimento. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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