"O acesso à música tem de ser livre, gratuito e de qualidade", defende Gilberto Gil

Esteban Linés
Em Barcelona

O músico e cantor brasileiro Gilberto Gil se apresentou no último fim de semana em Barcelona e ofereceu na noite de sábado suas "canções de sempre" em um insuspeitado concerto na tenda Movistar, sem outro acompanhamento que sua voz e sua guitarra, com seu filho na percussão. O espetáculo, definido como "Gil Luminoso", foi uma das raras oportunidades para se contemplar em estado quase puro o consolidado ministro da Cultura do Brasil. Leia a entrevista:

La Vanguardia - O senhor continuou no ministério no segundo governo do presidente Lula. O que exigiu dele para continuar no gabinete?
Gilberto Gil -
Que íamos superar a papelada burocrática.

LV - Parte dos músicos mais importantes, como Caetano Veloso, criticou sua política de panos quentes, de não ter feito quase nada no campo musical.
Gil -
Você me conhece e sabe que as decisões de peso devem ser tomadas com uma margem de tempo. A crítica é saudável, mas também é verdade que a população brasileira nos deu confiança para continuarmos mais alguns anos. E agora tenho certeza de que poderemos começar a fazer coisas visíveis.

LV - O senhor não duvidou em revolucionar a dialética do acesso livre à rede.
Gil -
Toda a minha obra musical é de acesso livre na rede. É fundamental aplicar a democracia de raiz.

LV - Mas que o diga o senhor, como ministro da Cultura de uma das grandes potências musicais, é...
Gil -
O presidente Lula foi paciente comigo. Me deu maior confiança. Queremos levar a cultura a todos os cantos do país.

LV - De longe, isto parece campanha eleitoral.
Gil -
Lógico, atrás do samba e da bossa nova há muitas coisas por fazer. O Brasil é o perpétuo país da incoerência, quero dizer que não é suficiente que vivamos da fama de nosso grande patrimônio musical.

LV - Como vê isso de ser juiz e parte quando falamos de música?
Gil -
Da forma mais natural. Agora estou acabando meu novo disco solo, que sairá depois do verão, e enquanto isso estamos tentando mudar toda a legislação cultural, que está com mais de meio século de defasagem. Tudo um pouco complicado.

LV - Sua nova obra, seu novo disco, não pode surgir prostituída pelo fato de o senhor ser o ministro do ramo?
Gil -
Poderia ser, sem dúvida. Mas existem técnicas de relaxamento e de abstração de caráter oriental que me são profundamente úteis.

LV - O senhor não pode avaliar as novas apostas da música brasileira.
Gil -
É claro. Ninguém me perdoaria, me matariam. Mas a cena brasileira é tão rica que não é preciso fazer nenhum tipo de prognóstico.

LV - Na verdade pretendia lhe dizer que depois de sua geração, depois dos nordestinos ou dos sambistas ou bossanovistas, o panorama pode chegar a ser inquietante?
Gil -
Não é preciso que se inquiete, o Brasil tem um excesso de oferta, há muitas músicas e músicos. Mas uma árvore tem de morrer para que apareça a nova raiz.

LV - Fale sobre o concerto de hoje.
Gil -
Eu, meu filho Bem, minha voz e minha guitarra. Explico as necessidades de minha vida. Esta turnê é uma das condições que pedi ao presidente. Tenho de buscar e encontrar válvulas de escape, arejar-me e oxigenar-me. São cerca de 20 canções tiradas de 40 anos de profissão.

LV - Mas tem outras coisas entre...
Gil -
Claro. Com meu grupo amplo continuamos viajando o espetáculo Banda Larga, e enquanto isso estou gravando meu novo disco, Banda Larga Cordel, um disco declaradamente pop.

LV - Volto ao princípio. O senhor defende o acesso livre à música.
Gil -
Para mim, as prioridades culturais são que as pessoas leiam mais, vão aos museus e valorizem seu patrimônio. É preciso mudar as leis de consumo cultural. O acesso à música tem de ser livre, gratuito e de qualidade. O autor deve ser compensado, é claro, mas aquilo vem primeiro. "Agora tenho certeza de que poderemos começar a fazer coisas visíveis", diz o ministro a respeito de sua atuação à frente da pasta da Cultura Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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