Maoístas querem que o rei do Nepal saia "com elegância"

Jordi Joan Baños
Enviado especial a Katmandu

Depois de sua vitória arrasadora e inesperada nas eleições no Nepal, a guerrilha maoísta transformada em partido político recomendou ao rei Gyanendra que abandone o trono "com elegância". Nas palavras do número 2 maoísta, Baburam Bhattarai, o rei ainda tem tempo de "abrir as portas de uma república democrática" antes de se transformar em "mais um cidadão".

O único partido monárquico, o RPR, foi o quinto colocado na eleição, sem conseguir nenhum dos 240 assentos atribuídos aos candidatos mais votados de cada circunscrição. Cerca da metade dessas vagas de deputados foram conquistadas por maoístas. Enquanto isso, os dois grandes partidos tradicionais, o conservador Congress -do primeiro-ministro interino- e o esquerdista UML, ficaram a uma grande distância dos revolucionários.

O escrutínio continua agora para atribuir os 340 lugares que são distribuídos pelo sistema proporcional em escala nacional, mas por enquanto os maoístas somam mais de um terço dos votos, e assim poderão ficar perto da maioria absoluta.

O líder máximo maoísta, Pushpa Kamal Dahal, ou Prachanda, já manifestou que pretende honrar o compromisso pré-eleitoral de manter a coalizão de sete partidos que dirigiu o país interinamente durante mais de um ano. Entre outras coisas, porque será preciso contar com dois terços na Assembléia Constituinte para aprovar a futura Constituição. No entanto, os derrotados Congress e UML decidiram que sua adesão dependerá da atitude dos maoístas, aos quais acusam de não ter abandonado as táticas intimidantes.

A primeira decisão da Assembléia Constituinte será proclamar a República, e depois disso terá dois anos para redigir a primeira Constituição da história do Nepal. Desse modo, um reino hindu, unitário e paternalista será em breve uma República laica federal encabeçada por antigos guerrilheiros, ainda considerados uma organização terrorista pelos EUA.

Os milhares de refugiados tibetanos que vivem no Nepal temem que a vitória maoísta signifique um estreitamento de relações com Pequim que poderia prejudicá-los. No entanto, Prachanda ("o feroz") se esforçou nos últimos dias para dissipar as tensões e anunciou moderação e diálogo com os empresários, assim como um modelo de desenvolvimento público-privado.

As chaves da vitória maoísta devem-se ao fato de ter conquistado a maior parte do voto jovem em um país onde não se votava havia nove anos. Também foi bem recebida sua aposta em candidatos de castas inferiores e etnias marginalizadas, para uma população cansada do longo domínio do Estado por parte da elite de Katmandu e as castas guerreira e sacerdotal.

A integração de parte dos 20 mil guerrilheiros ao antigo exército real, que combateram durante anos, é uma das pendências mais difíceis. A hierarquia do exército, que continua sendo monárquica mas lembra com freqüência que nunca deu um golpe, propôs "educá-los" e, eventualmente, mandá-los para o estrangeiro. Os ex-guerrilheiros ganham nas urnas e pedem o fim da monarquia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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