Um ano de governo Sarkozy: o Bonaparte da era midiática

Lluís Suría
Em Paris

Com quase 19 milhões de votos de uma mobilização histórica -84% de participação-, Sarkozy surgiu da eleição presidencial com uma força e uma legitimidade política incontestáveis, reforçadas pela ampla vitória posterior nas legislativas de junho. Apesar dessas cartas iniciais, ele conseguiu em um ano se transformar no presidente mais impopular da Quinta República.

São muitos os indicadores que retratam a descida aos infernos desse Bonaparte moderno. Bastam dois. Primeiro: com uma popularidade de 36% -segundo a última pesquisa Ifop-, Sarkozy completa seu primeiro aniversário no Elysée com o pior resultado já obtido pelos últimos presidentes. De Gaulle, Pompidou, Giscard, Mitterrand e Chirac -em seu segundo mandato- coroaram essa etapa em uma situação bem mais confortável. Só o Chirac de 1996 conseguiu um apoio semelhante (37%), mas com uma diferença importante: os insatisfeitos representavam 47%, contra 64% no caso de Sarkozy.

Segundo: o índice que mede a moral dos lares franceses, calculado pelo Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos desde 1987, se situou imediatamente após a eleição de Sarkozy em -13, um dado negativo, mas que depois experimentou uma melhora de 7 pontos. Hoje a moral caiu para um recorde histórico: -37.

SClaude Paris/Reuters - 6.ma1.2008 
Sarkozy gesticula durante debate sobre trabalho para idosos em Les Angles, na França

Não porque a UMP (União por um Movimento Popular), o partido governista, sofreu um duro castigo nas eleições municipais de março, nas quais perdeu o governo da maioria das grandes cidades para a esquerda. Uma parte importante dos votos dos eleitores de Sarkozy em 6 de maio, sobretudo das camadas populares, desta vez se absteve.

O que aconteceu para chegar até aqui? Para começar, a economia fracassou. O crescimento econômico não só não conseguiu decolar como declinou (1,9% em 2007 e uma previsão de 1,7% a 2% para 2008, abaixo das expectativas iniciais), enquanto o crescimento do déficit público (2,7% no ano passado) reduziu a margem de manobra do Executivo. "O que querem que eu faça, que esvazie as caixas que já estão vazias?", disse o presidente em janeiro, em uma demonstração suicida de impotência. Enquanto os preços disparam, os franceses comprovam que as promessas de recuperação do poder aquisitivo se esfumaçaram. Só a evolução do desemprego, que continua em baixa, é positiva.

É verdade que a conjuntura internacional não poderia ser mais esquiva a Sarkozy. Mas também é verdade que as medidas adotadas até agora pelo governo não deram grandes frutos. O "choque de confiança" que Sarkozy anunciou com a reforma fiscal aprovada no verão passado não foi visto em lugar nenhum. A ministra da Economia, Christine Lagarde, sugeriu há alguns dias que sem a aprovação do "pacote fiscal" -que injetou 15 bilhões de euros no mercado, reduzindo na mesma medida as receitas do Estado- provavelmente a situação seria pior.

O 1º ANO DOS PRESIDENTES
Philippe Wojazer/Reuters
Sarkozy diante do Palácio do Elysée
Oliver Weiken/EFE - 6/11/2006
Chirac disse tudo em um ano
Charles Platiau/Reuters - 3.nov.1994
Mitterrand, um presidente socialista
Francois Mori/AP - 11.dez.2003
D'Estaing foi presidente aos 48 anos
NICOLAS SARKOZY
JACQUES CHIRAC
FRANÇOIS MITTERRAND
2008, ANO SOMBRIO
Mas os franceses têm a sensação de que esse presente fiscal para as empresas e para os mais ricos será pago pelos mais fracos. Os cortes que o governo anuncia hoje nas prestações sociais e nos serviços públicos só vêm reforçar a visão de que o esforço não está sendo eqüitativo e que as reformas prometidas não são totalmente justas.

Os próprios partidários do presidente apontam criticamente que as reformas -das quais já se promoveram cerca de 50- sofrem de falta de coerência e de hierarquização suficientes para ser compreendidas e assumidas. Não poucas iniciativas governamentais se chocaram com a resistência, quando não a hostilidade, dos parlamentares da UMP.

Acrescente-se a esse coquetel explosivo a ostentação e a desenvoltura com que Sarkozy se conduziu pessoalmente durante a maior parte desse tempo, e se compreenderá sua queda nas pesquisas. Ao ponto de produzir uma situação inédita, tratando-se de duas figuras do mesmo partido: o primeiro-ministro acabou sendo mais popular que o presidente. Essa anomalia política deteriorou ainda mais as já difíceis relações políticas e pessoais entre Sarkozy e François Fillon, a quem ninguém prevê um longo futuro em Matignon. Só a presidência semestral da UE, que a França assumirá em 1º de julho, evitou sua demissão antecipada.

A correção de rumo realizada por Sarkozy nos dois últimos meses no que se refere a seu estilo pessoal -tomando altura institucional, mostrando uma maior compreensão e austeridade- não deu por enquanto um resultado perceptível.

Nesse estado de fragilidade, Sarkozy deverá enfrentar nos próximos meses uma situação social enormemente conflituosa. O mal-estar existente no setor da educação, por causa da prevista supressão de 11.200 cargos de professores no próximo curso, ameaça gerar um amplo movimento de protesto estudantil nas ruas, tradicional calcanhar-de-aquiles dos governos franceses. A retomada dos protestos, interrompidos agora pelas férias escolares, também confluirá com a mobilização que os sindicatos preparam contra a reforma das aposentadorias, um grande cavalo-de-batalha. Sarkozy começará seu segundo ano com uma primavera quente.

O principal sinal da ruptura prometida há um ano por Nicolas Sarkozy -o único que foi até agora uma mudança de estilo, um modo de governar, uma forma de ocupar o espaço midiático, de administrar a transição entre vida pública e privada. À falta de mudar o país, Nicolas Sarkozy mudou por enquanto radicalmente a figura do presidente da República.

Impetuoso, vaidoso, determinado e imperativo, o presidente francês decidiu desde o primeiro momento ocupar todo o terreno e tomar na mão todo o poder, forçando ao limite a lógica presidencialista da Quinta República. Sob a era de Nicolas Sarkozy, um Bonaparte moderno que pretende manter um vínculo direto com os franceses, só o presidente existe, só o Elysée conta. A principal vítima desse esquema de governo, de contornos autocráticos, foi a figura do primeiro-ministro, apagada do mapa e reduzida a desempenhar um papel subalterno. As dificuldades que emperram as relações entre Sarkozy e François Fillon devem muito a essa situação, que também deteriorou os vínculos entre o presidente e os parlamentares da maioria.

A hiperpresidência de Sarkozy teve uma dimensão midiática indissociável. Mestre em estratégia da comunicação, o presidente francês manteve até há pouco tempo a mesma política de quando era aspirante à presidência, baseada na saturação. A onipresença de Sarkozy nos meios de comunicação acabou sendo asfixiante, e, quando as coisas começaram a ir mal, se voltou contra ele. Até chegar à grosseria atirada a um cidadão que não quis cumprimentá-lo no Salão da Agricultura.

Exibicionista e ostentatório -não é à toa que ganhou o apelido de presidente bling-bling, uma onomatopéia que se refere ao ruído das correntes de ouro que alguns rapeiros penduram no pescoço-, Sarkozy também jogou desde o primeiro momento com sua vida privada. Decidido a oferecer uma imagem moderna e informal, qual um novo Kennedy, não hesitou em empurrar para o primeiro plano da cena sua segunda mulher, Cécilia. Mas a nova primeira-dama não cumpriu seu papel e a ruptura do casal, cinco meses depois da eleição, acabou transformando seu divórcio -o primeiro de um chefe de Estado francês em exercício desde Napoleão!- em um assunto de Estado.

Longe de aprender com seu erro, e em um gesto que talvez tenha mais de vingança sentimental do que de cálculo político, Sarkozy se precipitou com rapidez adolescente a gabar-se de sua última conquista: a muito vistosa e desejada cantora e ex-modelo Carla Bruni, a qual, pouco mais de três meses depois do divórcio, transformou em sua terceira esposa. Sua vertiginosa mudança de parceira e suas escapadas de namorado por meio mundo, rodeado por uma nuvem de fotógrafos, em um momento em que as dificuldades econômicas começavam a azedar o sentimento coletivo dos franceses, cobraram uma pesada fatura.

Consciente da necessidade de dar uma virada de leme em sua imagem, instruído por seus conselheiros e guiado por sua nova e elegante mulher -que em sua primeira viagem oficial, ao Reino Unido, mostrou seu "savoir-faire"-, Sarkozy pôs em prática há alguns meses uma certa correção de estilo. Mais reservado, mais austero, o presidente faz enormes esforços para guardar maior distância e dosar melhor suas aparições públicas. É mais presidente, de acordo com a visão que os franceses têm do cargo, embora isso quase não tenha repercutido até agora em seu índice de popularidade.

Hoje Sarkozy não é mais a figura onipresente do início, mas continua sendo -entre aspas- o "hiperpresidente" que tudo controla. Encantado por ter-se tornado famoso, não consegue evitar continuar se mostrando presunçoso: "Afinal, governar é mais fácil do que eu pensava", disse dias atrás à revista "Le Point". Há coisas que não mudam. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, instaurou uma nova maneira, absoluta e midiática, de exercer a presidência. "Afinal, governar é mais fácil do que eu pensava", ele afirma Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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