Mar mais poluído do mundo, Mediterrâneo tem a biodiversidade ameaçada

Cristina Sáez
Em Barcelona Em Barcelona

Apesar de ser um mar fechado e relativamente pequeno, que representa somente 1% da superfície dos oceanos do planeta, com seus montes submarinos e suas fossas que alcançam profundidades de até 5 mil metros, ele é um dos ecossistemas aquáticos mais ricos do mundo. De fato, em suas águas habitam 9% da fauna marinha de todo o planeta e nelas foram identificadas 10 mil espécies. Mas o Mediterrâneo que banha nossas costas e que há séculos faz as delícias dos veranistas é um ecossistema extremamente frágil, a ponto de os biólogos advertirem que as crianças de hoje não poderão desfrutá-lo como fizeram seus pais nas últimas décadas.

O boom turístico, um litoral cada vez mais urbanizado, o aumento do tráfego marítimo e a poluição das águas, entre outras causas, somadas aos efeitos da mudança climática, estão provocando profundas transformações no Mare Nostrum e colocando em perigo muitas espécies que vivem nele, como os baleotes, as tartarugas verdes e os golfinhos, que praticamente desapareceram do litoral.

A pesca excessiva é uma das ameaças mais graves para a biodiversidade mediterrânea. No mar trabalham 28 mil pescadores que extraem 1,5 milhão de toneladas de peixe por dia, o dobro de 50 anos atrás. Segundo os biólogos, trata-se de um volume insustentável que os ecossistemas mediterrâneos não poderão suportar em longo prazo.
EXCESSO DE PESCA
"As mudanças nos ecossistemas ocorrem aos poucos, mas quando chegam são irreversíveis", alerta Suzana Requena, bióloga do Centro de Recuperação de Animais Marinhos (Cram). É o que está acontecendo atualmente no Mediterrâneo, onde encontramos invasões de espécies novas que estão deslocando as nativas; onde estão desaparecendo zonas de pesca que antes eram produtivas; e onde uma parte importante dos animais que vinha agora deixa de fazê-lo. "Começamos a notar as conseqüências da globalização ambiental, que somada à mudança climática desenha um panorama nada promissor", adverte Suzana.

Para começar, o Mediterrâneo é o mar mais poluído do mundo. É o que dizem vários relatórios que a Greenpeace e outras organizações ecológicas realizaram nos últimos anos. Dejetos ilegais, descuidos humanos e o transporte maciço de mercadorias, entre outros, fazem que tudo o que vive nessas águas seja suscetível de desaparecer ou de acabar contaminado. Os litorais urbanos são os mais afetados, já que recebem dejetos domésticos, agrícolas e industriais procedentes da rede de esgotos urbana, assim como dos emissários submarinos.

O turismo também agrava sua saúde debilitada e faz que espécies como a foca monge tenham desaparecido completamente e outras, como as tartarugas e o coral vermelho, estejam prestes a desaparecer. "A proliferação de praias e portos desportivos, de campos de golfe e outros serviços associados ao lazer deixam muitos animais sem hábitat para nidificar e criar, como ocorre com a andorinha-do-mar no delta do Ebro ou a gaivota cinzenta das ilhas Baleares, uma ave marinha que só pisa na terra para pôr seus ovos", explica Requena, coordenadora de um projeto de educação ambiental em colaboração com o programa "La Caixa a favor del mar".

"Apesar de se falar muito na mudança climática em relação à terra, a verdade é que também afeta de maneira importante o meio marinho", afirma Josep Alonso, coordenador científico do Íbero, um veleiro dedicado à pesquisa marinha que faz parte do programa ambiental da Obra Social de La Caixa. "Os mares e oceanos têm um papel essencial na regulação do clima e estão muito relacionados a fenômenos como El Niño."

A diminuição das águas fluviais também contribui para aumentar a temperatura do mar. "A contribuição do Ebro e do Ródano no Mediterrâneo noroeste é essencial, porque esfria o mar e é uma fonte fundamental de nutrientes para muitos peixes, como por exemplo a anchova", explica Requena.

Com o aumento da temperatura média da água nas diversas estações do ano, muitas espécies originárias de zonas mais quentes chegam ao Mediterrâneo e substituem as locais. É o caso da alga predadora Caulerpa racemosa e da sardinha alacha, muito freqüentes na costa da Andaluzia e de Múrcia e que há alguns anos pode ser pescada no sul da Catalunha, em detrimento da sardinha comum.

A transformação do hábitat marinho também é um grave problema para os cetáceos. "Evolutivamente, esses mamíferos se adaptaram para emitir e receber sons que lhes permitem detectar suas presas a certa distância e reconhecer o ambiente em que vivem. O sonar são seus olhos, sua voz e seus ouvidos", explica Michel André, diretor do Laboratório de Aplicações Bioacústicas da Universidade Politécnica. A mudança climática, ao modificar os parâmetros de salinidade, pressão e temperatura, distorce a forma como o som se propaga na água e, portanto a visão do entorno que esses animais têm, tornando cada vez mais difícil caçar, comunicar-se e até orientar-se.

Por isso se multiplicam as colisões com barcos, como ocorre com muitos cachalotes que depois de se alimentar durante horas a vários quilômetros de profundidade saem cansados para a superfície em busca de ar e morrem ao chocar-se com os ferry-boats. Todo ano são vitimados muitos desses grandes cetáceos. E não é nada simples se levarmos em conta que um só desses animais precisa comer cerca de uma tonelada de lulas por dia. "Quando um cachalote desaparece, aumenta muito o número de lulas na região, que arrasam com o plâncton, a base da cadeia alimentar, e acabam provocando a deterioração de todo o ecossistema da região", afirma Alonso.

Mas para os especialistas o principal perigo é o ruído, que faz que muitos cetáceos acabem morrendo nas praias. "Essas espécies têm o mecanismo de audição prejudicado pela forte exposição a fontes sonoras que precisam suportar, como manobras militares, transporte marítimo e outras atividades produzidas pelo ser humano", explica André, que dirige um projeto europeu para tentar controlar a poluição acústica nas águas da UE. "Sabemos há 15 anos que o equilíbrio natural do Mediterrâneo está gravemente ameaçado e que a poluição acústica constitui o perigo mais recente e crescente, pois não está regulamentada, diferentemente de outras fontes de poluição como os dejetos químicos. Seu impacto pode ser irreversível", alerta André. "Hoje ainda podemos reverter essa tendência com medidas e soluções tecnológicas, mas logo será tarde demais." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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