A sociedade mudou, e agora o mundo é das mulheres, defende sociólogo

Justo Barranco
Em Barcelona

"A transformação que conduz de uma sociedade de conquistadores do mundo -guerreiros, cientistas- a uma de auto-realização, como é a atual, substituiu a sociedade dos homens por uma sociedade de mulheres", escreve o sociólogo francês Alain Touraine (nascido em 1925 em Hermanville-sur-Mer) em seu livro "El mundo de las mujeres" [O mundo das mulheres], editado na Espanha pela Paidós, que apresentou na última segunda-feira no Institut Francès. Isto é, hoje as grandes preocupações já não são conquistar o mundo, mas criar a si mesmo a partir da sexualidade, como em outro tempo foi a partir do trabalho. E nessa modernização diferente da que a Europa praticou durante séculos, separando razão e sentimentos, as mulheres levam a dianteira. Touraine falou sobre esse fenômeno com LA VANGUARDIA.

Vítimas? "Para muitos estudiosos as mulheres não são atores, mas vítimas de um sistema de dominação total e impessoal ao qual ninguém pode se opor. Certamente sofrem uma enorme e surpreendente quantidade de violência no trabalho e na família.

"Eu sou mulher." "Mas ao falar com mulheres me surpreendeu que nenhuma se definisse como vítima, mas como mulher. Podiam se definir como mãe, engenheira, tunisiana... mas começavam por 'Eu sou mulher'. E a meta de todas é construir sua vida como uma vida de mulher. As mulheres deixam de se definir pela relação com os homens e priorizam sua construção a partir de sua sexualidade, de uma nova relação com o corpo e com elas. Querem atuar sobre si mesmas, mais que sobre os outros."

Sedução, a quem? As mulheres, "mais que os homens, passam por esse individualismo, pelo cuidado do corpo, a escolha da indumentária, para construir sua personalidade singular". Mas "a maquiagem, a ginástica, a cirurgia estética, que os homens interpretam como manobras de sedução, são antes de tudo maneiras como as mulheres tentam seduzir a si mesmas". Afinal, ele diz, "a relação com o homem já não é a meta final: através dele está a relação consigo mesma". E a construção de si, acrescenta, não é brincadeira em um mundo líquido no qual "tudo nos chama a escapar de nós mesmos".

Ambivalência. "As mulheres são conscientes de que a combinação de opções imperfeitas é a melhor solução possível: trabalho e vida pessoal. Sabem que uma participação limitada em qualquer campo impedirá seu êxito, seja em sua carreira ou com seus filhos, mas consideram necessário combinar as duas facetas. É uma mudança profunda, o ator julga a situação em relação a si mesmo. Estávamos concentrados no mundo, agora em nós. Isso origina toda uma ética."

Unir a vida. "Assim como o ecologismo político e os movimentos antiglobalização buscam reintegrar os aspectos que o processo europeu de modernização separou e opôs, são sobretudo as mulheres que sofreram uma dominação mais completa, as que formulam os grandes temas da reconciliação do corpo e da mente, do passado e do futuro, do privado e do público, do interesse e da emoção. Em vez de escolher entre razão e imaginário, os unem sem confundi-los."

Mulher e publicidade. Para Touraine, as mulheres enfrentam hoje uma nova dominação, "a que transforma a mulher em consumidora. As mulheres se envergonham de como são usadas em muitos anúncios, mas depois compram, porque são principalmente contra a publicidade não quando as mostra como objeto sexual, mas quando através da mulher sexualizam objetos. Como dizia uma entrevistada, 'quando volto para minha casa depois de ver os anúncios no metrô e me olho no espelho vejo que já não tenho rosto nem cabelos... roubaram minha imagem'". Nova obra do sociólogo francês Alain Touraine analisa uma profunda mudança social Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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