Pobreza no Oriente Médio questiona os países do Golfo

Andy Robinson
Enviado especial a Sharm el Sheik

O rei Abdulah II da Jordânia recebeu muito mais aplausos no último domingo do que o presidente George W. Bush depois de seus respectivos discursos diante de centenas de empresários e políticos do Oriente Médio reunidos ao longo desta semana no complexo turístico de Sharm el Sheik, no mar Vermelho. Bush defendeu a necessidade da "segurança da terra do lar israelense", enquanto Abdulah pediu uma paz justa para a Palestina. Hosni Mubarak também fez críticas veladas à política dos EUA no Oriente Médio.

Daí, talvez, a importância do debate principal do primeiro dia do encontro anual do mesmo fórum que Davos, realizado todo ano no Egito ou na Jordânia: se a região -mais concretamente, as monarquias petroleiras do Golfo- já dispõe de reservas de petrodólares superiores a 1,5 bilhão de euros e recebeu quase 1 bilhão de euros pela venda do petróleo nos cinco últimos anos, por que não dirige mais investimentos para suas próprias economias, em vez dos mercados de capitais americanos ou participações multimilionárias em bancos de Wall Street?

A questão é de grande transcendência para essa cúpula com 60 chefes de Estado e de governo realizada no cenário de um triplo atentado islâmico há dois anos, já que muitos acreditam que o apogeu do islamismo violento obedece em parte à extrema pobreza e desigualdade no Oriente Médio.

Apesar das abundantes receitas de petróleo na região, 24% da população do Oriente Médio recebem menos de US$ 2 por dia. O Egito sofre uma pobreza endêmica concentrada nas favelas do Cairo, castigadas pelo aumento do preço do arroz e do trigo superior a 100% em um ano. Apesar da constante publicidade sobre as novas capitais das finanças no Golfo, a mão-de-obra imigrante -procedente do subcontinente indiano, na maior parte- em cidades como Dubai afunda na miséria entre os preços crescentes dos alimentos e uma moeda (vinculada ao dólar) que se deprecia, reduzindo fortemente o valor das remessas que mandam para seus países de origem.

"Destruímos a classe média", afirmou Khalid Abdulah, presidente do Banco Timar de Bahrein, especializado no financiamento islâmico. "Muitos países petroleiros muito ricos têm infra-estrutura insuficiente de esgotos", disse como exemplo.

"Não há investimentos suficientes e o que há não é investido nos países pobres de recursos", disse Mustafá Nabli, assessor de desenvolvimento do Banco Mundial. Apesar dos anos de bonança depois da alta do petróleo a preços exorbitantes de US$ 110 o barril, os países do Golfo só registram índices de investimento privado entre 12% e 16% do PIB, contra 20% ou 25% nos países asiáticos de alto crescimento.

Mas outros participantes defenderam as estratégias de investimentos do Golfo. Mohamed Alabar, da gigante imobiliária dos Emirados Árabes, declarou que ocorreu "uma mudança incrível" em relação ao passado. "Se você duvida do critério de investimentos do Golfo, convido-o a tomar uma xícara de chá com a Autoridade de Investimentos de Abu Dhabi", disse, referindo-se ao maior fundo soberano da região, que foi feito com participação do Citigroup. Rashid Rashid, ministro da Indústria do Egito, destacou o crescimento anual de 8,7% da economia egípcia em 2007, que ele atribuiu à liberalização. A bolsa de petrodólares já supera 1,5 bilhão de euros, mas por que a região não investe mais em suas economias, em vez de nos grandes mercados e bancos dos EUA? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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