Empobrecimento da classe média é o verdadeiro drama da Itália

Enric Juliana

Até onde vai à Itália? No outro dia dissemos que não volta para o fascismo. Não, de modo nenhum, digam o que digam as profecias do ramo apocalíptico do progressismo europeu.

"Podemos nos transformar no México da Europa", é o amargo diagnóstico de um jovem jornalista italiano -na casa dos 30 anos, milanês de origem siciliana, pessoa séria, portanto- enviado a Madri em março passado para cobrir as eleições espanholas. Os milhares de jovens italianos que nos últimos cinco anos se instalaram em Barcelona (na ciclotímica Barcelona), em busca de trabalho e liberalidade, certamente tiveram a mesma intuição, embora isso de México da Europa só possa ser verbalizado, assim, cruamente, por um homem circunspecto, um italiano com sangue siciliano nas veias.

A Itália não desliza para o autoritarismo. O maior risco do país em curto prazo é a quebra, irreparável e sem peça de reposição, da idéia de progresso coletivo; o naufrágio do paradigma civilizatório (social-democrata e social-cristão) surgido da Segunda Guerra Mundial, malogrado em quase toda a Europa ocidental, mas ainda vigente. Assim se romperia vertiginosamente o velho (e viciado) equilíbrio itálico entre Estado social e "fai da te" (faça você mesmo); entre proteção e individualismo sagaz (a arte de "campare", de buscar a vida, que tanto impressionou Josep Pla).

O catálogo dos males italianos é longo e fácil de reconhecer: paralisia do sistema político; uma nova lei eleitoral que é uma porcaria (assim a definiu há alguns anos seu autor, Roberto Calderoli, atual ministro da Liga Norte: "Eu a escrevi e é uma 'porcata'"); burocratismo; corporativismo (em todos os segmentos profissionais, sem exceção); gerontocracia; clientelismo; intervencionismo sindical excessivo; centralismo; pequeno poder das administrações regionais; um brutal abismo social entre o norte e o sul; e o pavoroso fenômeno do crime organizado, do qual Nápoles e seu lixo insepulto são uma dramática vitrine.

À lista seria preciso acrescentar a tutela vaticana, admitindo em seguida que sem a Igreja Católica a Itália não existiria. E também a alta densidade da população, que inflama facilmente os atritos da imigração (nesse aspecto a Espanha, com muito menor densidade urbana, joga com vantagem).

A Itália é o laboratório onde se testa a resistência da civilidade européia diante do lento mas implacável desaparecimento da classe média, tal como foi entendida nos últimos 70 ou 80 anos. A velha Itália diante da Itália "low cost". Um grande teste para a Europa. Muito mais interessante que tudo o que possa acontecer na França. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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