Por que o Ocidente não compreende o mundo árabe?

Josep Play-Maset
Em Barcelona

"Não entendo os imigrantes: vêm para o nosso país, vivem ao nosso lado e depois querem mudar nossas normas e costumes. A Espanha não é um país muçulmano e não tem por que aceitar essas tradições arcaicas. Colocar o véu islâmico em uma menina é impedir que ela aprenda, é excluí-la da escola pública", diz María, uma jovem catalã de 17 anos que estuda no Instituto Francês de Barcelona, em uma mensagem eletrônica enviada para suas amigas Meriem, francesa, e Lydia, italiana.

Não se trata de um diálogo real, mas da ficção criada pelo escritor Tahar Ben Jelloun em seu último ensaio, "Não entendo o mundo árabe" (editado pela Aleph e em catalão pela Empúries), a partir do diálogo entre quatro adolescentes.

Existe uma incompreensão do mundo muçulmano e árabe, dois termos que muitas vezes se misturam no discurso dos ocidentais. Ben Jelloun prefere falar dos árabes para circunscrever o problema, já que também há muçulmanos na China, na Indonésia ou na Índia.

Irshad Khan/AFP - 27.out.2007 
Muçulmana da Índia; discurso dos ocidentais mistura mundo muçulmano e árabe

Kebir Sabar, um pesquisador-colaborador da Universidade do País Basco, alertou sobre o ressurgimento de uma ideologia cheia de preconceitos, estereótipos e xenofobia. "As velhas representações do outro no imaginário europeu -o bárbaro ou o mouro, por exemplo- são substituídas ou atualizadas por outras figuras: o 'fundamentalista muçulmano', o 'terrorista árabe ou islâmico' e o 'imigrante clandestino'", salientou o autor.

Uma pesquisa do CIS feita em 2003 mostrou que "os norte-africanos são os imigrantes que inspiram menos simpatias" e em uma escala de 0 a 10 obtinham 5,3, contra 5,9 dos africanos, 5,8 dos cidadãos do Leste Europeu e 6,6 dos latino-americanos. Quais são as causas? Em países com uma longa relação com os árabes existem preconceitos que se expressam inclusive em canções e que têm raízes profundas na história (piratas argelinos, desastres da guerra do Rif, a guarda moura de Franco...).

Medo do terrorismo
O 11 de Setembro e o 11 de Março representaram dois grandes golpes para a aproximação entre o mundo ocidental e o islâmico, e vieram reforçar a idéia do choque de civilizações previsto por Samuel Huntington. E embora esses e outros atentados sejam obra de indivíduos isolados ou com uma relação difusa através da Al Qaeda, se amparam no islamismo fundamentalista. E a mídia ocidental não entra em matizes. "Por que a televisão convida esse tipo de gente que quando fala sobre o islã assusta os europeus? São pessoas que caricaturizam a religião. Não deveriam lhes dar a palavra, não lhes dêem publicidade", diz Meriem, a protagonista meio marroquina meio francesa, que vive em Paris. Seu mentor, Ben Jelloun, afirma que há intelectuais do islamismo moderado e críticos do fanatismo, mas "não são convidados para os programas de televisão". E acrescenta que o que existe é "um choque de ignorâncias e de preconceitos".

As últimas detenções de paquistaneses no Raval são um exemplo de como esse tipo de atuação, tanto as dos terroristas como algumas ações preventivas desmesuradas da polícia, acentuam a islamofobia. Depois desse episódio, um grupo de entidades muçulmanas divulgou um comunicado em que conclamava "a reagir diante da difusão de leituras fundamentalistas do islã e a combater o radicalismo dentro das comunidades muçulmanas". Em particular, alguns signatários manifestaram sua preocupação diante "da presença de discursos salafistas entre as comunidades muçulmanas da Catalunha". Seu eco foi tênue dos dois lados da barreira.

Religião politizada
Em uma sociedade de origem católica que acabava de retirar os crucifixos dos prédios oficiais e das escolas e que deixava para trás uma época em que a igreja compartilhou o poder, a presença de meninas com véus nos colégios, trabalhadores que param para cumprir o Ramadã ou orações na rua criam incompreensões. O recente acordo de um matadouro de Girona que faz coincidir os descansos com as horas de oração é considerado por alguns um convênio pioneiro e por outros, um passo atrás.

"O lenço não é uma simples peça de vestimenta, é um símbolo político. Quando uma menina se cobre com o lenço é porque quer ser reconhecida como muçulmana praticante; e logo depois se nega a fazer aulas de ginástica (não quer vestir uma malha) e depois rejeita a aula de biologia porque dão explicações científicas sobre a origem do homem", diz o e-mail de Meriem. Jelloun acredita no laicismo e considera que o primeiro passo deveria ser uma escola onde se ensinasse a história das religiões, e não o proselitismo (cristão ou muçulmano). Só uma pedagogia baseada na tolerância permitirá avançar.

Os imigrantes latino-americanos, por sua proximidade com a cultura e a língua espanholas e por sua tradição associativa, tendem a criar entidades e adotar porta-vozes. Entre os marroquinos e entre os africanos é mais difícil. Na Catalunha, somente em abril passado surgiu uma federação de entidades culturais catalãs de origem marroquina. Eles mesmos fizeram um mea culpa por ser um dos coletivos pior organizados. A necessidade de dar coesão ao tecido associativo anda junto com a de trabalhar para oferecer um âmbito de diálogo, reflexão e debate. Inclusive se anunciou a criação de uma Casa do Marrocos em Barcelona. Poderia ser um passo a mais.

"Tudo começou com Khomeini"
A entrada dos radicais islâmicos na política começou no Irã com a revolução de Khomeini, em 1979. É a hipótese de Tahar Ben Jelloun (nascido em Fez, Marrocos, em 1944). O ex-dirigente iraniano disse que o islã seria político. E o fracasso das ideologias progressistas no mundo árabe propiciou que o islã ocupasse esse vazio.

"De uma religião se fez uma ideologia, e isso é um perigo", afirma Jelloun, um prestigioso intelectual que vive entre Tânger e Paris.

Na opinião dele há outras tentativas como o aparecimento dos Irmãos Muçulmanos no Egito (1928), mas foi Khomeini "quem conseguiu liberar o imaginário do fanatismo". E também lembra que a vitória da revolução iraniana foi louvada em sua época por intelectuais como Michel Foucault, Jean Genet ou Claude Mauriac, que não viram que essa revolução se dirigia para uma ditadura. Barreiras entre o mundo ocidental e o muçulmano: terrorismo, preconceitos e religião politizada dificultam a integração dos muçulmanos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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