Preço dos combustíveis e mudança climática abalam o "american way of life"

Marc Bassets
Em Levittown, Nova York

Em uma das ruas principais de Hicksville, um povoado de Long Island a uma hora do centro de Nova York, há um cartaz que recomenda aos motoristas: "Troquem o posto de gasolina pela estação de trem".

Com os preços dos combustíveis na estratosfera e a ameaça de mudança climática fora de discussão, cada vez mais habitantes dessa região formada por quilômetros e quilômetros de zonas residenciais estão conscientes da necessidade de mudar de estilo de vida. Mesmo que seja por causa da conta de gasolina.

Long Island ainda é a pátria das urbanizações características da classe média norte-americana, com casas de dois andares e jardins construídas no final da Segunda Guerra Mundial, coincidindo com o regresso de centenas de milhares de soldados e o início de uma longa era de prosperidade.

Robert Galbraith/Reuters - 21.abr.2008 
Carro passa ao lado de posto de gasolina na Pacific Coast Highway, na Califórnia

Mas Suburbia -o nome dessa cidade imaginária que se estende de Long Island à Califórnia, de Chicago ao Texas- passa por um mau momento. Desde que foi criado há 60 anos, no que era um campo de batatas perto de Hicksville, Levittown, considerado o primeiro bairro residencial do país, Suburbia foi o cenário do "American way of life". Um estilo de vida indissociável da dependência do petróleo e do consumo energético desenfreado.

A construção das urbanizações e a rede de autopistas ocorreram paralelamente. Sem as primeiras não se entende a dependência do automóvel pelos americanos. Quem vive em uma dessas áreas -e mais da metade dos 300 milhões de americanos vivem nelas- precisa do carro para ir comprar e trabalhar.

Viver sem automóvel? Nem em Levittown é possível. "É muito difícil", diz Louise Cassano, ao volante de seu carro enquanto conduz o visitante pelas ruas do bairro prototípico.

Cassano, casada e com dois filhos já adultos, mora aqui desde 1951. Quatro anos antes, a empresa familiar Levitt & Sons começou a construir as 17 mil casas para outras tantas famílias jovens que começavam do zero. Não está claro se Levittown foi realmente o primeiro, mas serviu de modelo para as centenas de subúrbios que brotaram por todo o país.

Quando Cassano, que tem uma pequena empresa de relações públicas, chegou aqui, procedente do bairro nova-iorquino do Brooklyn, era menina. Seu pai era bombeiro e usava o único carro que havia na casa.

"Não havia serviço telefônico. Os serviços de ônibus eram horríveis. Íamos sempre andando", lembra.

As vantagens de viver em Levittown, porém, eram indiscutíveis. A área residencial representava o sonho da casa com jardim ao alcance de todos. Longe da sujeira e do ruído urbanos, o ambiente era limpo e seguro.

"Nunca trancávamos a porta", diz Cassano. Com os anos, os moradores dessas regiões compraram outro carro. A gasolina era "de graça". A era de Levittown também foi a dos "malls", os imensos centros comerciais que serviram de rua principal dos bairros residenciais.

Enquanto ocorria o êxodo para a periferia, o centro das cidades empobreceram e foram tomados pela violência e o abandono.

O crescimento dos subúrbios tinha limites. Em seu livro "A Opção do Urbanismo", o urbanista Christopher B. Leinberg afirma que essa evolução "fomentou a decadência urbana, aumentou as emissões de gases do efeito estufa e contribuiu para o aumento da obesidade e da asma".

Leinberg acredita que o esgotamento do modelo energético, as mudanças demográficas -a proporção de famílias com filhos diminuiu- e a crise imobiliária vão acelerar uma "mudança importante na maneira de viver e trabalhar de muitos americanos".

Para reduzir drasticamente as emissões, seria preciso uma revolução: ou construir uma rede de transportes públicos que alcançasse todos os subúrbios do país -coisa improvável, nem que seja pelas dimensões dessas áreas residenciais-, ou que seus habitantes voltassem de repente para o centro das cidades. O repovoamento das cidades já é um fato, mas dificilmente representará a morte dos subúrbios.

Enquanto isso, em Levittown buscam soluções mais realistas. Pioneiros há 60 anos, querem voltar a sê-lo agora. Tom Suozzi, o presidente do condado de Nassau, onde se encontra Levittown, lançou uma iniciativa para revigorar a área. Associado a empresas privadas, o condado ofereceu milhares de lâmpadas de baixo consumo, assim como facilidades para substituir as velhas caldeiras ou instalar painéis solares.

Os Cassano trocaram as lâmpadas há dez anos e instalaram um aparelho para economizar combustível para a caldeira, o que reduz ao mesmo tempo a poluição e a conta de energia no fim do ano.

"Temos de recrutar os americanos comuns", diz Brad Tito, assessor de Suozzi em questões ambientais. "As mudanças começam em casa." O preço do petróleo e a mudança climática põem em xeque o modelo urbanístico dos EUA, baseado em grandes áreas residenciais. Levittown, o primeiro subúrbio residencial, lidera uma pequena revolução para reduzir o consumo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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