Marrocos inaugura um cabaré adaptado ao Islã

Carla Fibra

A 12 quilômetros de Marrakech, na estrada de Fez, junto a palmeiras e oliveiras, Les Folies de Marrakech ocupa 4 hectares de terreno. Em um imponente edifício retangular, rodeado por pequenas colinas, apresenta-se há algumas semanas o primeiro "music hall" do Marrocos.

Os convidados chegam às 20h30, e no estacionamento encontram um grupo de músicos vestidos com galabyias brancas. Tocam instrumentos tradicionais, um ritmo animado que se repete variando a velocidade; sorridentes, os músicos acompanham os que vão experimentar o cabaré à marroquina.

No exterior, a apresentação começa com um artista vestido de branco, um anjo que sobe até o teto do edifício. Claude Thomas, a alma desse enorme projeto, dá as boas-vindas e, como se se dirigisse a uma orquestra, em uma plataforma a mais de dois metros de altura, rege os acrobatas que saltam, cospem fogo, dão cambalhotas, se contorcem. Um movimento frenético que termina quando os próprios artistas acendem as fogueiras entre as quais o público é convidado a entrar no espetáculo. No interior, à direita decorado de vermelho imitando a Ópera de Paris e à esquerda com reproduções de balcões da medina de Marrakech, até mil pessoas podem comer. Depois do jantar, sofás confortáveis convidarão a assistir aos números que combinam música francesa, árabe e americana.

Abdelhak Senna/AFP - 17.mai.2008 
Dançarinos marroquinos se preparam para apresentação no Les Folies de Marrakech

Eles contam com um vestuário de mais de 400 peças. "Eu apareço em todas as cenas, troco de roupa 20 vezes. É genial porque somos todos marroquinos, e pela primeira vez podemos mostrar nosso ofício em nosso país", explica Badar, 21 anos, originário de Salé (perto de Rabat), onde aos 11 anos começou a praticar trapézio na escola de circo Shemsy.

São 37 jovens entre 17 e 21 anos no palco, a maioria vinda de famílias desfavorecidas e ambientes sociais pobres. "O passado desses jovens é muito duro. Mentalmente têm 40 anos, porque tiveram de enfrentar a morte de seus pais. Alguns viviam na rua, trabalhavam como empregados em casas e conviviam com um ambiente social extremo", explica Santiago Echemendia, que além de coreógrafo faz às vezes de psicólogo e é amigo dos jovens artistas.

Durante o jantar, bailarinas de dança oriental como Ahlan, de 21 anos, que depois de ter trabalhado quatro anos em Dubai voltou para a festa do cordeiro e soube dos testes para Les Folies de Marrakech. "É como uma família: comemos juntos, aprendemos, ensaiamos. No Marrocos só se podia dançar nas discotecas, não havia projetos ou espetáculos como este, mas Claude é um artista e fez um espetáculo com marroquinos", comenta Ahlan com extrema doçura.

Quando se abre o telão, uma cortina de água, o palco se enche de bailarinos que dão vida aos personagens da praça de Yemaa el Fna, em Marrakech. "Interpreto um rapaz, um engraxate que um dia tropeça com um francês do mundo do espetáculo. O menino quer ser artista e o europeu lhe diz que precisa apenas de um grupo de amigos para fazer um espetáculo. Então fecha os olhos e começa o sonho. Aparece em Paris", relata com emoção Imad, que passou quase a metade da vida montado em uma corda, equilibrando-se e ensaiando números de acrobacia.

Mas o espetáculo acontece no Marrocos, e tanto os criadores como os artistas respeitam os costumes e a religião do país. Por isso as saias foram encompridadas, tudo leva forro e o cancã é feito com calças curtas por baixo. Além do esforço para se transformarem em artistas profissionais, buscou-se uma maneira para que todos interpretem sem complexos. "Em dois meses comprovei o que eles tinham no estômago. São excepcionais. Eu lhes disse: 'Vocês vão chorar lágrimas de sangue. Estão preparados?'", lembra com prazer o diretor, Claude Thomas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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