O dilema de Nelson Mandela

De Rafael Ramos

Mandela falou finalmente, depois de um longuíssimo silêncio que durou oito anos, quando pediu sem sucesso a saída do tirano. E o fez em Londres, em um jantar de gala junto de Bill Clinton e Gordon Brown, em termos inequívocos, como referência moral não só da África como de todo o mundo. Não podia mais se calar, manifestou sua "preocupação e dor pela situação no Zimbábue" e criticou a "falta de liderança" de Robert Mugabe.

Poderia ter sido mais duro e denunciar os assassinatos e violações perpetradas pelo governo, a violência e a fraude democrática, mas tem suas razões para sua cautela, desde a avançada idade até o fato de estar afastado do poder. Mas a mais importante de todas refere-se à política interna sul-africana e consiste no desejo de não criticar nem pôr em evidência seu sucessor como presidente e líder do Congresso Nacional Africano (CNA), Thabo Mbeki, um intelectual que defende a idéia de um "renascimento africano" e trata Mugabe com luvas de seda. A rainha da Inglaterra, que não precisa tomar tantos cuidados, despojou Mugabe do título de cavaleiro que lhe foi concedido no ano de 1994 por John Major (o primeiro estrangeiro que sofreu essa humilhação, desde Ceacescu, na véspera de sua execução).

A QUESTÃO AFRICANA
Will Wintercross - 25.jun.2008 / EFE
Nelson Mandela, antes do jantar que celebrou seus 90 anos, em Londres
O DILEMA DE MANDELA
MUGABE INTIMIDA O ZIMBÁBUE
Nelson Mandela é intocável depois de ter negociado com os responsáveis pelo apartheid e de ter liderado uma revolução pacífica tendo como base o perdão em um dos locais mais violentos do planeta, mas seu silêncio tinha sido questionado ao chegar a Londres para participar na sexta-feira de um grande concerto no Hyde Park em comemoração aos seus 90 anos -na realidade ele os completa no dia 18 de julho- e participar da habitual rodada de almoços e jantares.

O CNA (a formação esmagadoramente majoritária no país) se encontra dividido entre a facção do xhosa Mbeki -presidente do país- e do zulu Jacob Zuma -líder do partido e grande favorito para sucedê-lo nos escritórios do governo de Pretória- na peculiar versão sul-africana da coabitação. Nelson Mandela, acertadamente ou não, preferiu não atiçar o fogo da discórdia e expor ainda mais a divisão.

"A crença generalizada de que Mbeki se entende bem com Mugabe é equivocada", afirma Arthur Masinga, um jornalista sul-africano. "Na realidade sente um profundo desprezo por ele como pessoa e como político, mas o respeita como o outro grande herói da independência da África Austral (junto com Mandela), e por se atrever a fazer a reforma agrária e expropriar as terras dos brancos, o que na África do Sul tem sido inviável até agora, a não ser de um modo simbólico."

A tradução disso é que Mbeki preferiu contemporizar com Mugabe, acreditando que no final o convenceria a firmar um compromisso, mas na realidade aconteceu com ele o mesmo que com Blair na guerra do Iraque, para a qual se voltou com entusiasmo, acreditando que conteria Bush. O ditador zimbabuano aferrou-se ao princípio de que "só Deus lhe tirará o poder". Com tudo isso, Zuma aproveitou-se do fracasso diplomático de seu rival adotando uma posição muito mais dura, facilitada porque muitos dos seguidores do líder opositor Morgan Tsvangirai pertencem a uma etnia que tem parentesco com os zulus.

Mandela, que é xhosa como Mbeki, contestou seu sucessor, quando este negava que a Aids fosse conseqüência de um vírus, para obrigá-lo a aceitar o uso dos retrovirais. Um desafio semelhante fez com que ambos deixassem de se falar durante dois anos, e no caso do Zimbábue havia preferido calar e observar à distância. Até a noite da última quarta-feira (25/6). Claudia Dall'Antonia

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