Camponesa é o pesadelo de Evo Morales

Joaquim Ibarz

Há menos de dois anos, Savina Cuéllar aprendeu a escrever com o primeiro programa cubano de alfabetização. O nome dessa vendedora de roupa usada percorreu o mundo como símbolo da revolução educacional do presidente Evo Morales. Em julho de 2008, Savina se transformou em governadora da região de Chuquisaca, depois de uma sonora ruptura com o presidente boliviano por apoiar as autonomias regionais.

Savina Cuéllar representa melhor que ninguém a reivindicação dos indígenas, a mesma que Morales adotou como bandeira de luta. A vitória nas urnas da primeira governadora na história da Bolívia a transformou em ícone da oposição, e em uma dor de cabeça para Morales. Savina é um paradoxo difícil de entender: foi expulsa do partido governamental Movimento Ao Socialismo (MAS) por se opor à nova Constituição indigenista de Morales.

Gerardo Rodriguez/Reuters - 20.ago.2008 
Governadora Savina Cuéllar deposita seu voto durante referendo boliviano

Em um espanhol precário - seu idioma é o quíchua e assim se comunica com a maioria das pessoas -, Savina explicou a "La Vanguardia" que foi doloroso romper com Morales. "Sempre lutei pela esquerda, em busca de justiça. Sou camponesa, talvez por isso tenha sempre apoiado Evo. Meu pai, meu marido e meu cunhado foram mortos por malfeitores para roubar seu dinheiro. Depois do assassinato de meu pai e de meu marido por assaltantes de estrada, voltei à política para buscar justiça. Lutei, me esforcei. Sinto-me decepcionada com Evo, não gosto que ele enfrente o país. Me doeu romper com ele, mas devo isso ao meu povo".

A pobreza a ensinou a trabalhar desde pequena. As brincadeiras infantis foram substituídas pelo pastoreio. Aos 16 anos participou de um congresso da Federação de Mulheres Camponesas de Chuquisaca, e por sua juventude e determinação foi eleita secretária executiva. Savina acreditava que com Lidia Gueiler na presidência tudo mudaria para a mulher. Pouco depois foi derrotada pelo duro golpe militar de Luis García Meza. A ditadura iniciou a perseguição aos dirigentes sociais. Savina, na lista, se escondeu nas montanhas quando foram buscá-la.

Por sua notoriedade e seu trabalho nos bairros, o MAS a levou como candidata à Assembléia Constituinte. E ganhou. Sua timidez e a pouca prática do castelhano limitaram suas intervenções nas sessões; a oposição atacou. "Militei no MAS com entusiasmo. Aplaudia Evo porque dizia que tinha os mesmos objetivos que eu: acabar com a pobreza e lutar pela justiça."

Essa mulher de 45 anos, mãe de sete filhos - outros quatro morreram -, diz que fez florescer a terra árida de Chuquisaca à força das lágrimas. Hoje defende as autonomias regionais que Morales desqualifica como ilegais e separatistas. Essa ruptura com o MAS ocorreu por compartilhar a reivindicação de que Sucre, capital de Chuquisaca e sede do poder Judiciário, voltasse a ser a capital do Executivo e Legislativo, como foi no século 19. A demanda foi excluída da Constituição que Morales conseguiu aprovar.

"Muita gente perdeu os olhos e as mãos nos confrontos. Evo deve reconhecer seus erros, mandou para Sucre seus ponchos vermelhos (indígenas radicais), militares e policiais para nos matar. Sucre exige desculpas. A comunidade indígena está descontente com o governo". A líder indígena irritou o governo ao anunciar que convocará um referendo para que Chuquisaca vote se quer a autonomia, e desde então o MAS iniciou uma campanha contra ela. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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