Lugo comunga com Chávez em missa depois da posse

Robert Mur

No Paraguai tudo começa muito cedo, para evitar o calor. Se na sexta-feira os atos de transmissão de poder que culminaram na posse de Fernando Lugo como novo presidente começaram às 7 da manhã, no dia seguinte o mandatário já assiste a uma missa pouco depois das 8. Não é uma missa qualquer. Realiza-se na catedral de San Pedro de Ycuamandiyú - a 330 km de Assunção -, cuja diocese foi ocupada pelo bispo Lugo durante dez anos. Em um ato carregado de simbolismo, o presidente escolheu visitar os que foram seus fiéis. Na primeira fila está Lugo, com sandálias e semblante respeitoso; à sua esquerda, de camisa vermelha bolivariana e pose do mais fervoroso dos católicos, de olhos fechados e mãos no peito, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Chávez passeou pelo Paraguai no primeiro dia de governo de Lugo, o que para muitos é todo um indício de que o Paraguai será abduzido para o clube bolivariano formado por Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador. Mas colaboradores muito próximos de Lugo explicaram a "La Vanguardia" que ninguém sabe realmente o que pensa o ex-bispo e que não se casará com ninguém. Como um bom pároco, Lugo aceitará todas as doações, venham de onde vierem.

Ivan Alvarado/Reuters - 16.ago.2008 
Lugo (esq.) e Chávez durante missa na catedral de San Pedro de Ycuamandiyú

Quando o bispo de San Pedro entrega o Corpo de Cristo a Lugo, disparam os flashes dos fotógrafos que tiraram o lugar dos resignados sacerdotes concelebrantes da missa calorosa, mitigada pelos ventiladores pendurados do teto de madeira da catedral colonial.

Depois da missa, os dois presidentes vão para a praça dessa localidade de cerca de 3 mil habitantes, situada em uma das regiões mais pobres e conflituosas do país, para assinar 12 convênios de cooperação, o mais vistoso dos quais garante o abastecimento de 25 mil barris de petróleo diários para o Paraguai.

Em seu discurso, Chávez oferece a Lugo "todo o petróleo de que precise" e adapta sua retórica habitual ao contexto, com tom de teólogo libertador. "Cristo foi um dos grandes revolucionários de nossa história", diz Chávez, depois de falar no "Lázaro coletivo" que representa a "ressurreição" da América Latina.

Os presidentes bolivarianos tiveram uma presença importante durante a transferência de poder no Paraguai. Depois de jurar o cargo, Lugo compartilhou sua primeira entrevista coletiva com Chávez e com o equatoriano Rafael Correa. No entanto, junto deles, Lugo foi claro: "Acreditam que vamos ser 'venezuelanitos', 'ecuatorianitos' ou 'bolivianitos'; vamos ser paraguaios de verdade", declarou. "Não tenho medo de Chávez, não tenho medo de Evo, não tenho medo de ninguém", insistiu.

Este jornal foi testemunha da chegada de Chávez a seu hotel em Assunção na véspera da posse. Até lá se deslocou Lugo, que subiu ao quarto do venezuelano. Pouco depois chegou o boliviano Evo Morales. Permaneceu durante quase quatro horas no hotel, um pouco mais que Lugo.

Além de comungar, Chávez e Lugo também cantaram juntos. De surpresa, os dois presidentes surgiram no concerto popular que se realizou na sexta-feira em Assunção para festejar a mudança de governo e cantaram "Todo cambia" [Tudo muda], canção popularizada pela argentina Mercedes Sosa. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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