Palin, a Chávez do Ártico

Andy Robinson

Que ninguém pense em comparar Sarah Palin a Hugo Chávez. Mas a governadora do Alasca e candidata a vice-presidente dos EUA demonstrou que quando quer pode ser uma revolucionária do populismo petroleiro. Quem duvidar deveria ter passado pelo centro comercial da Quinta Avenida de Anchorage na última sexta-feira (12), dia da distribuição do dividendo anual do Fundo Permanente do Petróleo (PFD na sigla em inglês).

Centenas de cidadãos faziam fila nas lojas, impacientes para gastar os US$ 3.200 que o governo havia depositado naquela manhã em suas contas bancárias. "A esta hora de sexta-feira geralmente está bastante vazio, mas hoje as pessoas querem gastar seu PFD", disse uma balconista da loja de moda juvenil Banana Republic. No restaurante Simon and Seaforts, clientes com carteiras recheadas devoravam caranguejos gigantes. Agências de viagens anunciavam "ofertas PFD" de vôos para o Havaí. "Quando chegar o cheque vou tirar alguns dias para pescar", explicou o taxista Danny Austin.

Há 26 anos, todo mês de setembro, os moradores do Alasca recebem um cheque graças ao petróleo. Em 1982 se decidiu investir as receitas dos direitos de exploração petrolífera - 85% da arrecadação tributária do Alasca - em um fundo permanente. É uma estratégia empregada por muitos países petrolíferos - desde a Noruega até Abu Dhabi - para suavizar o impacto da volatilidade dos preços no mercado.

Graças ao preço disparado do petróleo nos últimos anos e a uma boa gestão financeira, o fundo cresceu como espuma, alcançando este ano quase 26 bilhões de euros em um Estado com apenas 600 mil habitantes. Todo ano se distribui um dividendo baseado na rentabilidade do fundo. Este ano o presente do PFD chega a US$ 2 mil (1.400 euros) por residente do Alasca.

Mas Palin quis ser ainda mais generosa e acrescentou ao pacote US$ 1.200 (850 euros) por habitante, o que foi possível graças a uma iniciativa que deixaria de cabelos em pé a Casa Branca do presidente petroleiro George W. Bush e seu feudo texano: uma alta dos impostos sobre os lucros das petroleiras de 22,5% para 25%.

As multinacionais do petróleo nos gigantescos complexos que se estendem pela amplidão gelada de Prudhoe Bay se enfureceram. Mas Palin, como os melhores revolucionários latino-americanos, mobilizou a opinião pública contra a "Big Oil". Os US$ 1.200 acrescentados ao cheque do PFD compensariam, segundo a governadora, o alto preço da gasolina, sobretudo nas comunidades indígenas, que continuam sendo bolsões de pobreza apesar do boom do petróleo e da prosperidade econômica do Alasca.

Claro, os moradores mais abastados de Anchorage e Wasilla (cidade de Palin), todos eleitores, também o recebem. As crianças também. Uma família de sete como a de Palin recebeu o equivalente a 16 mil euros. "Já se compreende por que Sarah é a governadora mais popular dos EUA, não?", brincou Howard Golden, biólogo do Departamento de Caça e Pesca.

Com grande astúcia, a governadora incorporou ao seu discurso eleitoral o confronto que teve com as grandes companhias de petróleo - Exxon, BP, Conoco-Philips e Chevron, importantes fontes de financiamento do Partido Republicano - sobre um novo gasoduto que deve ligar os campos de petróleo do norte do Alasca ao Canadá. "Se você quer um demônio, pode apontar a Exxon, BP e Conoco; é uma política astuta", disse Bert Stedman, senador republicano do Alasca, em declarações ao "The New York Times".

Mas, assim como Chávez, a governadora descobriu que sem o apoio das grandes multinacionais do petróleo é difícil captar investimentos suficientes. A Exxon - com sede em Houston, Texas - anunciou uma "reavaliação de seus planos de investimento" no Alasca e não está claro se a empresa canadense Transcanada, vencedora da obra do gasoduto, poderá realizar o projeto.

Embora ninguém tenha se atrevido a dizê-lo na convenção republicana, o presente anual das receitas do petróleo é possível em grande parte porque o Alasca recebe enormes transferências fiscais do governo federal, que Palin chama com desprezo de "Grande Governo".

Há economistas que também questionam se o PFD é a melhor política de redistribuição. "Há populações muito necessitadas no Alasca que não têm seguro-saúde. Não seria melhor concentrar a ajuda nessas comunidades?", diz o analista Roger Tissot, em Vancouver (Canadá). "Mas se você der US$ 3.200 para cada um, quem sabe se não vão gastar em bebida?"

Curiosamente, foi exatamente isso que Hugo Chávez fez em 2006: doou US$ 5,3 milhões procedentes do aumento das receitas do petróleo na Venezuela para 150 comunidades indígenas do Alasca. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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