A escassez assalta Cuba

Fernando García
Em Havana (Cuba)

"O verdadeiro ciclone está por chegar, é o que eu digo. É o ciclone da fome", diz, baixando a voz, um guardador de carros junto ao supermercado da Calle 70, no bairro de Miramar em Havana. Lá dentro, as prateleiras de carne, frango e embutidos estão vazias; as de arroz e macarrão, peladas, com alguns pacotes de marcas européias a preços proibitivos; o canto dos legumes, totalmente limpo. E não há açúcar branco. Já a feira de domingo, na Calle 13 do município de Playa, havia deprimido todos os que há três dias foram ali com a esperança de encontrar alguma coisa. E as piores previsões se confirmaram nos, normalmente, bem sortidos postos privados das ruas 42 e 19, onde faltava o fundamental: as aqui chamadas "viandas" vegetais mais alimentícias, como a malanga, a mandioca e a batata-doce.

"Temos medo pelo que vemos e pelo que nos espera. Como não ter, se falta carne, a proteína, e também não há malanga para fazer o purê de nossos filhos!", dizem Julia e sua filha Giomara no mercado da 42. As duas andam perguntando preços e sua decepção é visível. O vendedor mais próximo, Rafael Chacón, levanta as mãos reconhecendo o pouco que tem e como está caro. "É o que há! Para nós o 'guajiro' (camponês) também aumentou o preço." O resultado é que, por exemplo, o preço da couve duplicou em uma semana, passando de 5 para 10 pesos cubanos.

É a carestia que sempre acompanha a escassez; uma e outra já se manifestam claramente como temíveis efeitos secundários dos furacões que arrasaram pelo menos 1 milhão de hectares de plantações - de um total de 3 milhões -, com a cana-de-açúcar e a banana como produtos mais atingidos: ao todo, cerca de 700 mil toneladas de colheitas comestíveis perdidas, às quais se devem somar a perda de outras 5.300 de alimentos armazenados, segundo números oficiais.

Chacón, nosso comerciante, concorda com os clientes em sua visão negra do panorama que se aproxima: "As pessoas estão assustadas com a fome que vem por aí", afirma.

Vários agromercados mais modestos que o da Calle 42 decidiram não abrir ontem. Outros anunciaram que certamente fechariam hoje: "Para que trabalhar se não há quase nada para vender?", nos disse um vendedor.

O governo de Raúl Castro reduziu ontem de US$ 10 bilhões para US$ 5 bilhões (10% do PIB nacional) a estimativa do valor total da destruição pelo Gustav e o Ike. Seu relatório limitou a 200 mil as pessoas que ficaram sem moradia "temporariamente", quando um cálculo conservador baseado em suas primeiras cifras indicava que o número poderia chegar a um milhão.

A mídia oficial não se cansa de destacar os avanços e a épica cotidiana da "fase de recuperação", especialmente no capítulo do que será por força um lento e penoso processo de reforma ou reconstrução de cerca de 450 mil residências, assim como de restabelecimento da energia elétrica nas vastas áreas que continuam às escuras.

Mas não só as pessoas, como também algumas organizações internacionais, evitam qualquer otimismo. A Agro Acción Alemana, com ampla experiência de Cuba, acredita que o país ficou exposto a uma preocupante "situação de insegurança alimentar para os próximos seis meses".

A ilha importa 84% dos alimentos que consome. Para frear essa dependência, o governo começará hoje a distribuir terras vagas aos que quiserem e puderem cultivá-las, de acordo com um decreto de julho. Mas até que a medida dê frutos, e vai demorar, Havana enfrenta graves problemas de liquidez. Não por acaso o Japão acaba de suspender seus créditos ao comércio com o país do Caribe, por causa - segundo a Nippon Export - de reiterados atrasos nos pagamentos por parte do Banco Central de Cuba.

A Espanha fez chegar à ilha um avião com 24 toneladas de ajuda, o segundo depois de um com 15 toneladas que voou depois da passagem do Gustav. O Brasil também enviou alimentos e Rússia, Venezuela e outros se dispõem a fazê-lo. Não será suficiente. Havana pediu a Washington que economize as doações que está lhe oferecendo (US$ 5 milhões na última vez) e suspenda o embargo pelo menos por seis meses, para que Cuba possa importar ou obter créditos nos EUA. É a guerra de sempre, só que no pior momento. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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