Conheça o Alasca de Sarah Palin, a terra das "hockey moms"

Andy Robinson

Um município de 7 mil habitantes a uma hora de Anchorage no meio de montanhas de 4 mil ou 5 mil metros e florestas de bétulas, Wasilla não tem símbolos de identidade. Só o Mug Shot Saloon, enfeitado com cinco bandeiras americanas. Não há cinema nem teatro para passar as noites de inverno a 20 graus negativos. Não há um centro urbano, mas um desfile de franquias dos dois lados da estrada. "Quando vimos a Wasilla vamos ao Wal Mart", diz Mike Nelson, que chegou à cidade com sua namorada e o filho, vindos de Anchorage.

O que há em Wasilla, a última fronteira suburbana do oeste, são pistas de hóquei no gelo, bares de karaokê e igrejas, cerca de 20 delas, na maioria levantadas pelo cristianismo evangélico que veio do Texas e de Oklahoma há meio século, depois da descoberta do petróleo. Sarah Palin pertenceu a duas - a Assembléia de Deus de Wasilla e a Igreja Bíblica de Wasilla -, ambas literalistas, isto é, defendem a leitura literal da Bíblia. Em um país de 50 milhões de renascidos, é difícil saber em que medida isso correspondia às convicções cristãs de Palin e em que medida a sua ambição política.

A primeira parada de nosso percurso de sábado passado foi o lago Lucille, rodeado de residências superdimensionadas, uma delas a da família Palin, e hidroaviões de caça Piper Cub. O fundo de montanhas violeta, levantando-se sobre um bosque em chamas outonais, era tão apocalíptico quanto a Bíblia de Sarah Palin. Ao percorrer as residências do lago em busca da casa da família, um alce cruzou rapidamente diante do carro, igual aos que os Palin caçam e esquartejam, às vezes diante das câmeras, em uma demonstração de sintonia com a América profunda e eleitoralmente cobiçada.

Na noite de sábado passado na Igreja Pentecostal Assembléia de Deus de Wasilla, que batizou Sarah aos 8 anos, o pastor Ed Kalnins dirigia uma estranha produção de teatro juvenil com a ajuda de um rapper cristão da Carolina do Norte apelidado de Future. "Antes de decidir que carreira profissional vamos seguir, estamos tentando nos conhecer a nós mesmos através de Jesus Cristo", disse Reuben, um rapaz de roupa escura com cabelo tingido de azul. Outro jovem cristão exibia uma crista punk de cor carmim.

Kalnins, um cinqüentão com barba de dois dias, se negou a falar sobre Palin. Mas explicou por que para ele o Alasca é um estado puro: "Aqui não há criminalidade, temos amplos espaços, 30 hectares por morador. Eu morava em Nova Jersey e não suportava tanta gente". É o discurso típico na última fronteira da fuga antiurbana dos EUA. Mas para Kalnins o Alasca é muito mais que espaços abertos: é um refúgio das forças do mal diante de um iminente apocalipse. "O Alasca e o Wisconsin são Estados refúgio para os quais virão milhões de pessoas", disse em junho quando Palin visitou a igreja.

No mesmo sábado a nova igreja de Sarah Palin, a Igreja Bíblica de Wasilla, organizava em Anchorage uma jornada sob o lema "O amor venceu" para explicar as últimas terapias de cura de homossexuais, de acordo com "o desejo de Deus de transformar as vidas daqueles que foram atingidos pela homossexualidade". A dez minutos da Igreja Bíblica, na Biblioteca Pública de Wasilla, sabe-se que Palin pressionou para que dois livros que tratam de homossexuais, "Pastor, Eu Sou Gay" e "O Colega de Quarto de Papai", fossem retirados das estantes.

Depois de percorrer a Wasilla de Sarah a Vingativa, criacionista homofóbica e profeta do apocalipse, passamos à Wasilla de seu alter ego, Sarah Palin, a mulher moderna e "hockey mom" que divide sua carreira profissional com cinco filhos. No Mocha Moose Espresso costumava tomar um café com chocolate branco e leite desnatado. E virando a esquina, na pista de hóquei no gelo da Brett Memorial Arena, a governadora trazia seu filho Track para jogar na equipe juvenil de Wasilla, o Alaska Avalanche.

A chamada "soccer mom" que supostamente ajudou Bill Clinton a chegar à Casa Branca era a mãe de classe média branca que, em um ato de amor e sacrifício, levava seus filhos para jogar futebol toda semana no 4x4. A "hockey mom" é algo parecido, mas com mais sacrifício, em parte porque faz um frio de pelar no estádio, em parte porque as viagens para as partidas, pelo menos no Alasca, podem demorar dois dias. "Dirigimos desde Homer, que são dez horas", disse Heidi Stage, mãe de Asa, defesa do Homer de 16 anos. Heidi interrompia a conversa a cada 30 segundos para gritar: "Venha, Asa!"

Mas o que significa "hockey mom"?, perguntei. "Não sei, talvez seja pela dedicação à criança", respondeu Heidi. Nem todas as "hockey moms" são iguais. Ao abordar o assunto de Palin, Heidi ficou com o olhar vago. "Track tem um caráter muito violento na pista; tomara que Obama ganhe." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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