Faltam ovos em Cuba

Fernando García

Alguns cubanos descontentes se refugiam no humor ultimamente, e falam de dois planos imaginários de abastecimento do governo, batizados com os nomes de um povoado e uma serra: "El plan Camarioca: hay pero no te toca. Y el plan Escambray: te toca pero no hay" [O plano Camarioca: existe mas não o afeta. E o plano Escambray: o afeta mas não existe].

Um mês depois da passagem devastadora dos ciclones Gustav e Ike, a escassez de alimentos é uma realidade em Cuba. Um produto tão elementar quanto o ovo se transformou em um bem cobiçado e caro, além das dez unidades por pessoa/mês que o Estado distribui e promete continuar distribuindo.

No mercado agropecuário de 42 e 19, no município de Playa em Havana, havia na quinta-feira menos vendedores que fiscais e policiais. O espaço central de verduras, tubérculos e legumes estava vazio pelo terceiro dia consecutivo. Desabastecimento devido aos ciclones? Sim, mas o problema é mais complexo.

No caso deste e de outros centros não-estatais, até agora regidos pela oferta e a procura, os comerciantes mantêm uma disputa com a autoridade devido à recente decisão governamental de tabelar seus preços "provisoriamente", para evitar abusos. Sua reação é uma espécie de greve patronal.

Os vendedores acrescentam que os limites para seus preços, estabelecidos na segunda-feira para 16 produtos, liquidam seus negócios. Esses preços máximos correspondem aos que eram cobrados antes dos ciclones. "Mas agora o agricultor ou o intermediário vendem mais caro para nós [sobretudo depois da queda na produção e de o governo ter aumentado os preços dos combustíveis em torno de 70%]. Se eu compro por 3, não posso vender por 2", dizia o dono de um posto.

Os ovos estão "desaparecidos" e os espaços para legumes e verduras aparecem "pelados", quando não limpos, por toda Havana. A primeira situação se compreende, levando em conta que em Pinar del Río, por exemplo, os furacões arrasaram uma centena de galpões e 30% das galinhas poedeiras; a produção da ilha foi reduzida em 40%, segundo fontes oficiais.

Em outros produtos, a carência é preocupante, mas varia conforme o bairro. Depois de visitar os postos vazios de 42 e 19, três quarteirões à frente vimos um mercado estatal relativamente bem surtido, com "malanga", batata-doce e mandioca, mas sem banana nem pepino. A fila era enorme.

Em um "organoponico" (horta urbana) do bairro de Miramar, uma avalanche de 200 pessoas acabou em poucos minutos com 15 caixas de alfaces. Ninguém conseguiu levar mais de 2 libras (cerca de 1 quilo), pois as ordens do governo incluem limites de quantidade para evitar a estocagem.

A tensão nas filas é visível. Há alguns dias um aumento exagerado no preço da carne de porco provocou um tumulto em um mercado de El Vedado que deu lugar a uma fulminante intervenção policial. O vendedor teve de baixar o preço de 45 para 10 pesos a libra, segundo testemunhas.

O Executivo de Raúl Castro decidiu castigar duramente todos os que tentarem burlar as novas normas contra a especulação e o mercado negro. Por toda Havana ouvem-se notícias de julgamentos rápidos e punições severas. As medidas repressivas somam-se aos esforços de redistribuição de mercadorias e à tentativa de evitar o desabastecimento e a fome. Mas a escassez parece maior a cada dia. Assim como os temores e a impaciência dos cubanos.

Pagamentos externos

Cuba não pode cumprir os pagamentos de sua dívida externa, segundo um artigo divulgado no website oficial Cubadebate. No texto se atribui a situação ao "bloqueio intensificado" dos EUA. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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